A cega paixão pelo futebol

O futebol envolve paixão, irracionalidade, amor e ódio. Alguns o tratam como esporte, outros como religião, há quem veja no futebol a razão do viver. Pode ser visto como expressão popular, um forte traço da cultura. Ou (como dizem aqueles que não gostam) “22 homens correndo atrás de uma bola”. O que, afinal, é o futebol? Por que ele mexe tanto com as emoções humanas?

Domingo e Quarta feira são dias de jogo, e nos dias que sucedem, ao ligar a televisão, ou simplesmente andar pela rua, há discussões acaloradas presentes nos bares, padarias, escritórios, restaurantes.

O futebol é um dos poucos temas capazes de penetrar em todas as classes sociais, em diferentes nichos da sociedade, e ainda, uma das poucas expressões capazes de criar pontos de intersecção entre esses diferentes recortes sociais. Discute-se futebol em um canteiro de obra, em um condomínio de luxo, em um asilo para idosos, em uma escola de crianças, por que não abordá-lo, então, em um contexto Psicanalítico?

Vale lembrar que o futebol nem sempre foi assim reconhecido como expressão popular. Começou como um esporte restrito às elites.

Partindo do exemplo em São Paulo, aqueles que podiam praticar e ter acesso aos jogos eram somente indivíduos da alta sociedade, assistir ou chutar uma bola era, até então, um privilégio. Já a classe operária, não tinha acesso ao futebol. Para os marginalizados, o acesso ao futebol seria a realização de um desejo, a busca de saciar uma falta. Sendo assim, improvisaram. Mesmo sendo um esporte de elite, não havia necessidade de grandes investimentos financeiros para pratica-lo. Bastaria um espaço plano, grande, as traves poderiam ser feitas com madeira, pés descalços e uma bola, e o jogo já poderia começar.

Enfim, os operários e imigrantes marginalizados puderam jogar, conseguiram por um momento realizar o desejo e saciar a falta. Desta forma tiveram a falsa ilusão de alcançar o objetivo e consequentemente a plenitude, mas foi uma sensação breve, efêmera, logo se esvaiu.

O desejo permaneceu. O que por um breve momento parecia estar preenchido e saciado, voltou a pulsar insistente e intensamente. A partir de então a busca pela plenitude passou a ser integrar a Liga Oficial que havia sido criada pelos privilegiados, jogar bola nos campos improvisados não era mais suficiente.

Depois que fizessem parte da Liga o objeto do desejo poderia mudar novamente. Passaria a ser ganhar a Liga e uma vez que ganhassem a Liga seria criar outra Liga mais grandiosa, e daí por diante, em uma jornada interminável em busca da tão sonhada plenitude.

O futebol que move massas de apaixonados pode ser visto em diferentes abordagens como esta ilusão de completude. Pode ser a peça que preenche um espaço vazio de falta inesgotável, dando uma falsa e maravilhosa sensação de preenchimento.

Nos veículos midiáticos vende-se a ideia de que cada singular torcedor foi parte da conquista de um time, e de fato esta ideia é sentida. Sem o apoio do único e especial torcedor, o time não chegaria a tamanho êxito. O torcedor passa a ser uma parte de um todo, ele é acolhido pela massa e todos se reconhecem e identificam-se em prol de um objeto comum, seus times do coração. Em um estádio de futebol, múltiplas e singulares pulsões canalizam-se para o mesmo objeto, o racional abre espaço para o irracional, e a energia é descarregada na busca pela vitória. Os jogadores representam em campo o torcedor, e este passa a ser, por que não, uma extensão de seu fã dentro das quatro linhas. Milhares de torcedores fundem-se em uma espécie de unidade. A repressão e a censura afrouxam-se, e o futebol pode então se tornar objeto de descarga.

Assumindo diversas representações psíquicas e sendo objeto de diferentes pulsões do sujeito, tudo vai depender de como este indivíduo se relaciona consigo mesmo e com o mundo externo para saber qual o lugar do futebol em sua vida. ‘Hobbie” para alguns, vício para outros, oportunidade de reunir familiares e amigos, ou em casos extremos até instrumento para barbárie. Afinal, amor ou ódio?

Ambivalência é marca presente nas relações apaixonadas, com o futebol não seria diferente. O mesmo time capaz de despertar imenso amor quando ganha também pode despertar intenso ódio quando perde. Em uma torcida de futebol, as interdições se afrouxam, e as pulsões se satisfazem mais livremente, daí a satisfação de torcedores apaixonados. Ir ao estádio muitas vezes com frio e chuva pode ficar mais atrativo do que assistir seus times jogarem com uma visão bem melhor do conforto de seus lares. Parece fantasia, não?

Mas como na “vida real”, no futebol existem leis, regras. Por mais que o torcedor ame seu time, ele deverá aceitar que ele não vai ganhar todos os jogos e campeonatos, ele está submetido a uma Lei Maior, um Campeonato com regulamentos e outros times com outras qualidades que podem ser maiores do que as suas. Seu clube poderá até conquistar algo grandioso, um troféu importante valorizado pela cultura, mas a conquista será passageira e não o completará, logo terá que buscar um novo troféu.

E em nosso dia a dia seria diferente? No nosso trabalho, nas nossas conquistas? Quando conquisto uma promoção em meu trabalho, a sensação é incrível, mas no dia seguinte devo deixar de me vangloriar e comemorar para assumir as maiores responsabilidades que condizem com meu novo cargo.

O futebol pode ser capaz de nos transportar para um lugar maravilhoso de completude e onipotência na vitória, mas na derrota ele pode ser castrador como seria uma demissão do trabalho, ou um infortúnio na vida pessoal. A grande diferença é que na vida real temos que nos reaver com a nossa responsabilidade em cada derrota, é inevitável ver nossa imagem em um espelho imaginário a cada infortúnio, é difícil, machuca. No futebol meu time perdeu, mas foi culpa do juiz que não marcou aquele pênalti, ou do técnico que fez mudanças erradas, ou daquele jogador que perdeu o gol aos 45 minutos do segundo tempo, machuca também.

É de senso comum falar que quando nos apaixonamos ficamos cegos. E como torcedores apaixonados, tal cegueira é inevitável. Mas é uma cegueira que nos dá prazer, vital e mortal, antagônica, mas ao mesmo tempo complementar. Ambas as forças se associando para que seja possível um equilíbrio psíquico a favor da vida. Seria a paixão cega pelo futebol uma doença? Seria a vida suportável sem cegas paixões?

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A identificação

Durante o desenvolvimento pessoal, a partir de experiências vividas, assimilamos características ou propriedades daqueles que estão ao nosso redor. Na medida em que nos apropriamos de algo ligado ao outro, transformamos e construímos nossa própria personalidade.

Pode haver uma maior ou menor facilidade para que os relacionamentos se sustentem, dependendo de maior ou menor grau de afinidade disponível. Claro que isto não exclui a possibilidade de pagodeiros e roqueiros, gordos e magros, petistas e tucanos, criarem vínculos e se relacionarem harmoniosamente. Tudo dependerá, porém, do que cada objeto representa para cada um, tanto no plano consciente, como (principalmente) no campo do inconsciente.

Ao falarmos do inconsciente, e como ele atua nas relações sociais e nas nossas relações com o mundo externo, temos de abordar o conceito psicanalítico da identificação. Talvez uma das diferenciações entre a empatia ou mesmo afinidade tão usadas na linguagem cotidiana, com os processos de identificação para a psicanálise, é que os primeiros normalmente são usados pensando em um plano racional ou consciente, enquanto que o segundo leva em conta também o fator da influência do inconsciente. Algo mais primitivo, forte, imperativo, e ao mesmo tempo desconhecido.

Quem nunca ouviu as seguintes frases, ou algo próximo de: “Não sei o que é, mas não consigo ir com a cara de fulano, é mais forte do que eu”, ou “Tento gostar de ciclano, mas realmente não consigo, algo nele mexe comigo”. E não se sabe o por que, a causa é oculta. Mas por ser oculta, não deixa de estar presente e atuar nos influenciando em cada situação do dia a dia.

O que não é explicável neste caso não está no campo da lógica racional ou da consciência, mas dos processos de identificações primárias e inconscientes.

Ao falar de afinidades, empatia e pontos de interesse em comum, estamos falando de algo que é consciente, mas que de alguma forma passa também pela identificação no campo inconsciente. É uma “escolha”, e as aspas se justificam por não ser uma escolha consciente. Não é algo passível de controle, portanto, não é uma escolha deliberada com base racional. É uma identificação inconsciente ligada ao plano subjetivo, no qual cada um de nós possui seus afetos e sentimentos marcados por uma história singular, que desde sua origem passa a influenciar nas relações presentes, mesmo sem nos darmos conta de que isso acontece.

Sobre o conceito de Identificação para a Psicanálise

Para Freud, a identificação está fundada no complexo de Édipo, na medida em que o pai e a mãe são objetos de ambivalência, de amor e rivalidade. A criança teria duas possibilidades: assumir uma posição ativa e tomar o lugar do pai para satisfazer suas fantasias amorosas com a mãe, ou uma posição passiva para tomar o lugar da mãe (no caso do menino). Ao constatar que as fantasias edípicas não serão satisfeitas ou efetivadas sem a realização da castração, a criança tem de sublimar as fantasias incestuosas, e os investimentos libidinais são substituídos por uma identificação. Para que isto ocorra, é necessário que haja uma separação entre uma relação sensual, que é recalcada, e uma relação afetuosa, que permitirá a identificação. O superego então passa a ser uma instância identificada com as autoridades parentais, que são introjetadas no núcleo do mesmo.

Em sua teoria, Freud aborda diferentes modalidades de identificação, leva também em conta uma identificação que pode se opor àquela em que se baseia no enriquecimento ou constituição do ego ou de uma instância da personalidade. Seria como um processo inverso em que o objeto pode ser posto em um “lugar” dos ideais do sujeito, perspectiva em que há um mestre e seus discípulos membros de um grupo. Neste caso, o sujeito identifica o outro com sua própria pessoa, opondo-se ao primeiro caso em que a pessoa identifica sua própria pessoa com o outro. Apesar dos mecanismos serem opostos, podem coexistir formando um processo identificatório ainda mais complexo.

Há casos em que o objeto pode ser colocado em um “pedestal” e, de certa forma, substituir os ideais de ego de um sujeito. Neste caso, a identificação pode ter sido substituída por uma idealização. Do ponto de vista de uma conceitualização, enquanto identificado, o sujeito é capaz de investir em si, e também no objeto. Já quando idealizado, somente o objeto é passível de investimento, enquanto o ego do indivíduo fica desinvestido e fraco.

Não são muito incomuns casos de pessoas que cresceram em ambientes adversos, em que não foram desejadas, investidas de afeto, apegarem-se fanaticamente a objetos externos, seja um grande ídolo ou mesmo uma instituição como a Igreja por exemplo, buscando uma reparação de uma grande ferida narcísica, ou mesmo de um estágio anterior, de investimento narcísico para uma constituição psíquica como sujeito.

Claro que não se pode restringir a um ou outro grupo de pessoas este modelo de identificação que evolui para um estágio de idealização em que o investimento em seu próprio ego se esvazia e vai todo para o objeto, afinal, o indivíduo “mais bem constituído” (se é que podemos classificar assim), também está sujeito a idealizar um objeto. O que seria o apaixonado se não um sujeito esvaziado de libido, já que o objeto torna-se alvo de todo seu investimento libidinal.

Com a perda de um objeto de amor, que pode também ser a perda de um ideal, a energia que estaria ligada ao objeto amado deve ser restaurada para o ego. No trabalho do luto, o ego deve ser reinvestido narcisicamente, em um processo atemporal, longo, doloroso e gradual. A partir deste processo de reinvestimento narcísico, no que Freud coloca como sendo a passagem pelo luto normal, outro objeto poderá futuramente ser colocado como substituto do objeto de amor anteriormente perdido.

Ao perder um objeto de amor, há também a possibilidade de o ego introjetar para si o objeto perdido, por uma regressão à fase oral. Por uma identificação narcísica, o ego se modifica devorando o objeto, sendo este incapaz de reinvestir a libido do objeto amado perdido, daí a diferenciação entre o luto e a melancolia.

Neste caso a identificação está ligada à oralidade, voracidade, algo arcaico. O melancólico se identifica com o objeto e o introjeta, mas não é uma introjeção com o objeto total, e sim com a parte negra e sombria do objeto. O indivíduo se enxerga diminuído, se recrimina, tudo relativo ao mundo externo parece ser bom e incapaz de investimento, e tudo o que está introjetado em seu ego, em contraponto, é visto como ruim e repugnante. Mais uma vez o processo de identificação ocorre de forma inconsciente, e portanto, o melancólico não tem a consciência de que o que ele realmente odeia é o objeto introjetado, e não seu próprio ego. Por isso pode-se dizer que o suicídio de um melancólico é um homicídio inconsciente.

Haveria aqui a possibilidade de desenvolver o assunto da identificação sob a ótica de outros pensadores da Psicanálise. Como a intenção deste texto não é esgotar a temática, mas ser objeto de uma reflexão, finalizo por aqui e os convido a ler um outro artigo que escrevi aqui no site relacionado a este assunto, chamado de “Identidade Produzida".

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Estudar psicanálise

Resolvi escrever este texto endereçado principalmente aos que pensam em estudar psicanálise, ou mesmo aos curiosos que simpatizam com o tema.

A impressão que tive ao ter os primeiros contatos com o estudo da psicanálise é de que seria um processo de construção muito singular. Para os que buscam uma linearidade característica de muitas áreas do campo do conhecimento, pode ser um pouco angustiante.

Angustiante por que a psique humana não tem começo, meio e fim, nada parece ser “preto no branco”, como poderíamos dizer em uma linguagem mais cotidiana. Impossível desta forma, enquadrarmos conceitos em nossas “gavetas” do conhecimento. É preciso tentar pensar além de uma lógica de causa e efeito, e daí pode haver uma grata surpresa de quão apaixonante pode ser o contato com a psicanálise. Seria prudente não tomar como verdade absoluta qualquer tipo de discussão acerca do inconsciente do ser humano. Na construção de sua obra, Freud, o responsável por dar vida à psicanálise, deu algumas pistas sobre isto.

É que em muitas leituras, Freud apresenta uma teoria e em seguida a desconstrói, o que revela uma honestidade cativante para com o leitor interessado em adentrar o instigante universo do inconsciente. A convicção pode ser importante, mas pode andar de mãos dadas com a ignorância, somente a autocrítica e a humildade em reconhecer que o que construiu não era supremo, é que permitiram à Freud solidificar algo tão influente e presente em nosso modo de vida na contemporaneidade.

No trecho abaixo retirado de um de seus textos, Freud deixa clara esta complexidade do estudo da mente humana, bem como sua flexibilidade em formular uma teoria e depois modificá-la a partir de estudos posteriores: ”Senhoras e senhores, receio que acharão essa exposição difícil de acompanhar, e sabem que ainda não está completa. Lamento ter provocado sua insatisfação. Não posso, contudo, propor-me nenhum outro objetivo além daquele de dar-lhes uma impressão referente à natureza de nossos achados e às dificuldades envolvidas na sua elucidação. Quanto mais nos aprofundamos no estudo dos processos mentais, mais reconhecemos sua abundância e complexidade. Muitas fórmulas simples, que, de início, pareciam preencher nossas necessidades, posteriormente vieram a se revelar inadequadas. Não nos cansamos de modificá-las e aperfeiçoá-las.”(“Trecho retirado de “Conferência 32: Ansiedade e Vida Instintual”)

Na matemática, física, química, por exemplo, em um primeiro contato nos concentraríamos nos conceitos mais básicos, para que a partir destes cheguemos a outros mais complexos, e desta maneira os conceitos vão tomando forma e o nível de dificuldade vai aumentando progressivamente, diferente do que ocorre com os estudos psicanalíticos.

Levando em conta a subjetividade e a singularidade do inconsciente, devemos considerar a dificuldade do ingressante nos estudos de psicanálise em lidar com esta falta de linearidade.

Como então começar a ler os textos de Freud, sem antes ter a clareza do conceito de regressão, ou pulsão, ou inconsciente?

Isso suscitaria outra pertinente pergunta: Como ter clareza dos conceitos psicanalíticos sem antes ler os textos de Freud?

Um paradoxo insolúvel?

“Se eu estudar os conceitos antes de começar a leitura dos textos, vou ter que lidar com a dificuldade em contextualizá-los.”

“Por outro lado, se eu começar a ler os textos sem saber o significado dos conceitos primordiais, teria que lidar com a falta de compreensão total, de o texto ficar com algumas lacunas, já que não domino e não tenho clareza de alguns conceitos”.

Pois é preciso mesmo conviver com as lacunas. Se tentarmos entender tudo logo de cara, a angustia pode se tornar insuportável e invadir a vontade e o prazer pelos estudos.

A psicanálise estuda o que é humano, por isso estará sempre sendo pensada e repensada, se optar se formar como psicanalista prepare-se então para estudar para o resto da vida, e a sustentar a angústia da falta, de ter a convicta sensação de que sempre há algo que não sabe, e é aí que pode habitar a beleza.

Existem vários autores e pensadores que contribuíram muito com a psicanálise depois de Freud, e muitas abordagens diferentes acerca da psicanálise. (Lacan, Winnicot, Bion, Melanie Klein, Ferenczi, Ballint, dentre outros).

Tenho que escolher um autor ou uma linha a seguir? Não necessariamente, claro que poderá e deverá se identificar mais com uma ou outra forma de pensar a psicanálise, mas acredito que as diferenças e discordâncias teóricas podem e devem servir para construir, e não destruir. Podem conviver, e não necessariamente uma forma de pensar a psicanálise deve excluir outra. Reconhecer a diferença é algo bem diferente de excluí-la, penso então que é possível (e até salutar em minha opinião), entrar em contato com diferentes formas de pensar a psicanálise. Mas também é importante salientar que em alguns pontos uma linha de pensamento não poderá conviver com outra, por se contradizerem.

O que beira a unanimidade entre psicanalistas, é que a formação deve ser baseada em um tripé fundamental: estudo teórico, análise própria, e supervisão (acompanhamento de casos clínicos por outro psicanalista mais experiente). E é deste tripé que se explica a singularidade da formação de cada psicanalista, que não pode ser comprovada somente por um diploma, mas principalmente pelo seu preparo e autorização própria para exercer este ofício.

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Introdução ao conceito de Pulsão em Psicanálise

Abaixo compartilho um trabalho que fiz na ocasião do meu primeiro ano no Curso de Formação do Centro de Estudos psicanalíticos (CEP). A escrita está em um tom mais acadêmico, então talvez seja mais direcionada a quem tem interesse ou já iniciou os estudos em Psicanálise.

Para uma melhor compreensão da teoria pulsional de Freud, creio ser válido que entremos em uma discussão da origem e do uso da palavra pulsão, ou trieb, do alemão. Como afirma Hanns (1999), Freud usa o termo pulsão em uma gama vasta de significados correntes da palavra trieb do alemão. Em algumas traduções para o Português usa-se a palavra instinto para se referir à trieb, todavia esta tradução pode gerar uma confusão, uma vez que em Alemão existe tanto a palavra Trieb, quanto a palavra Instinkt.

De acordo com Laplanche e Pontails (1982), alguns autores parecem empregar os dois termos indistintamente, enquanto outros usam Instinkt para designar um comportamento hereditário que já estão pré-definidos em uma espécie, adotando, portanto, um significado mais biológico. Por outro lado o termo Trieb evidencia o sentido de impulsão, colocando em destaque um caráter de pressão, expresso neste neologismo da língua portuguesa, pulsão.

Até mesmo por não fazer parte da língua, ao contrário de trieb em alemão, o termo pulsão acaba por não ter lastro na língua falada como aponta Girola (2004), e desta forma contribui para evitar qualquer confusão com instinto e tendência. “Em Freud encontramos os termos em acepções nitidamente distintas”. (LAPLANCHE, PONTALIS, 1982, p.394) Hanns (1999) assume algumas concepções do termo trieb em alemão, que passam a ser úteis para compreendermos a pulsão no contexto da teoria freudiana:

  • Vontade, impulso, desejo, força que impele.
  • Base para uma necessidade, como exemplo o impulso de respirar, que é a base do próprio querer.
  • Instinto que incentiva em situação favorável ou prazerosa, que se acumula e passa de incentivo a imperativo em situação desfavorável ou desprazerosa. Passa a ser torturante na medida em que não o realizamos ou não o satisfazemos.
  • Instinto como força biológica motivadora que leva os seres de uma espécie a agir visando um mesmo objetivo.
  • Força atemporal, intangível, maior que o sujeito isolado.

Para Roudinesco e Plon (1997), a pulsão “...é um grande conceito da doutrina psicanalítica, definido como a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem”. (ROUDINESCO, PLON, 1997, p. 628)

Em sua obra “Os Instintos e suas vicissitudes”(1915), Freud discorre sobre o conceito de pulsão, e trata de diferenciar a pulsão de um estímulo, apesar de ambos os conceitos estarem relacionados na medida em que o primeiro é um estímulo aplicado a mente. Nem por isso podemos tomar por base que todos os estímulos aplicados a mente sejam de natureza pulsional, mas em alguns casos estes passam a ser de caráter fisiológico, como por exemplo uma luz forte que incide à vista.

Ao contrário dos estímulos fisiológicos que surgem do mundo exterior, os estímulos pulsionais são sempre de natureza interna, e impossibilitam a fuga do indivíduo, como aborda Laplanche e Pontalis (1982), no trecho abaixo:

“A lado das excitações externas a que o indivíduo pode fugir ou de que pode proteger-se, existem fontes internas portadoras constantes de um afluxo de excitação a que o organismo não pode escapar e que é o fator propulsor do funcionamento do aparelho psíquico.” (LAPLANCHE, PONTALIS, 1982, p. 395).

Outra característica importante do conceito de pulsão é seu caráter constante e de alta pressão. O impacto pulsional será sempre constante, nunca isolado e momentâneo. Esta força energética dinâmica demandará uma necessidade que será sanada por uma satisfação. (FREUD, 1915). Enquanto os estímulos externos podem ser dominados com maior facilidade, por intermédio de movimentos musculares capazes de afastá-los de seu raio de influência através de uma ação simples, os estímulos pulsionais demandam muito mais trabalho para serem administrados. O sistema nervoso passa então a ser responsável por reduzir os estímulos pulsionais ao nível mais baixo possível, de forma que quanto menor seja o grau de estimulação do aparelho psíquico, mais saudável, ou mais próximo do prazer estará a psique do indivíduo.

Os estímulos pulsionais são processos contínuos e complexos dos quais o aparelho psíquico não pode evitar ou acabar. O sistema nervoso deverá administrar e lidar com a energia pulsional, o que não é algo simples como discorre Freud no trecho abaixo:

“...exigem muito mais do sistema nervoso, fazendo com que ele empreenda atividades complexas e interligadas, pelo qual o mundo externo se modifica de forma a proporcionar satisfação à fonte interna de estimulação. Acima de tudo, obrigam o sistema nervoso a renunciar à sua intenção ideal de afastar os estímulos, pois mantém um fluxo incessante e inevitável de estimulação.” (FREUD, 1915, p. 126) Após esta abordagem sobre o conceito da pulsão, podemos partir para a exposição de alguns termos relacionados ao mecanismo pulsional:

  • Pressão: fator motor da pulsão, todos os instintos pulsionais são dotados de pressão que exigirá a atividade do psiquismo.
  • Finalidade: meta da pulsão, todos os instintos pulsionais possuem uma finalidade que deve ser satisfeita. Por mais que a finalidade última da pulsão seja imutável, pode haver vários caminhos para satisfação desta necessidade, ou seja a pulsão passa a ter várias finalidades intermediárias que podem convergir para a finalidade final.
  • Objeto: é o elemento que possibilita a pulsão à alcançar sua finalidade. Pode variar em demasia, não é ligado à pulsão, deve ser somente adequado para a satisfação da finalidade pulsional. Pode ser um objeto externo ou mesmo uma parte do próprio corpo do indivíduo. Uma pulsão pode mudar de objeto, eles podem substituir-se, sendo que um objeto pode assumir o papel de outro quando a realidade recusa a satisfação de uma pulsão. Neste caso a pulsão muda de objeto para obter a mesma finalidade. Também pode ocorrer de um único objeto ser alvo único de pulsões com distintas finalidades.
  • Fonte: é um órgão ou parte do corpo que determinará a origem de uma pulsão. Para fins de investigações clínicas o conhecimento das fontes de uma pulsão não é de importância como é a finalidade de uma pulsão.

A partir do momento que introduzimos os elementos ligados à noção de pulsão, podemos compreender melhor o percurso da mesma. As pulsões são originadas de um estímulo pulsional, gerado por uma fonte pulsional. Estes estímulos chegam à psique e podem gerar um acúmulo de energia que causará uma pressão que pode ser percebida como incômoda. Tal processo desencadeia uma necessidade ou urgência de satisfação, que buscará um objeto representado por imagens ou afetos que poderá possibilitar à pulsão alcançar sua finalidade. (HANSS, 1999) Neste processo de satisfação de uma necessidade gerada por uma pulsão, esta pode sofrer uma reversão de conteúdo, e a finalidade que era ativa pode passar a ser passiva. A análise da reversão da pulsão para a própria pessoa permitirá a Freud abordar a relação entre o sadismo e o masoquismo. (Roudinesco, Plon 1997). O masoquismo (passivo), nada mais é do que o sadismo (ativo) que retorna em direção ao próprio sujeito, ou seja, a finalidade ativa se transforma em finalidade passiva.

Bibliografia

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol. VI Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901)

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol XIV A Historia do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916)

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol XXII Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise e outros trabalhos (1932-1936)

GIROLA, Roberto – A Psicanalise Cura? Uma Introdução à teoria psicanalítica – Ed. Ideias e Letras (2004)

HANSS, Luiz – Dicionário comentado do Alemão de Freud – Ed. Imago (1996)

HANSS, Luiz – A teoria pulsional – Ed. Imago (1999)

LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. – Vocabulário de Psicanálise, Ed. Martins Fontes (1992)

ROUDINESCO, E. e PLON, M. – Dicionário de Psicanálise, Ed. Jorge Zahar Editor (1997)

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O conceito de Transferência na Psicanálise

Esta leitura indicaria para estudantes iniciantes de Psicanálise, ou à quem tem intenção de trabalhar na área. Escrevi o texto na ocasião em que estava no Curso de Formação, e nele apresento o tema da transferência por uma visão do que hoje se conhece por Técnica Clássica, ou seja, levando em conta a análise pelo viés freudiano de pacientes neuróticos, mais estruturados psiquicamente do que os denominados psicóticos, que àquela época Freud não considerava aptos para serem analisados por meio desta técnica que formulou por anos com tanto entusiasmo e competência. Depois de eu ter entrado em contato mais profundo no estudo de outros autores e pelas experiências da clínica, entendo que o tema pode ser abordado também por outras perspectivas, levando em conta a possibilidade de tratamento do que hoje muitos chamam de pacientes limites, e não somente restrito aos neuróticos ou pacientes normais, como pensava Freud na época de seu trabalho. Para quem se interessar pelo tema dos pacientes mais graves (cada vez mais frequentes na clínica) indico um livro de Michael Ballint que a mim foi de grande valia para ter um primeiro contato com o assunto e com uma visão de uma técnica que contemple também o tratamento do que ele chamou de pacientes da área da ‘falha básica’. O livro se chama “A falha básica”, e foi publicado pela primeira vez em 1968.

O tema da transferência na psicanálise sempre me pareceu controverso, e de algum modo confuso, até que a experiência de minha própria análise, e posteriormente meu início na prática clínica trouxeram uma maior abrangência à questão.

Neste caso os livros não pareciam dar conta, foi preciso vivenciar para que fizesse sentido. Como algo poderia funcionar como resistência e ao mesmo tempo ser a chave para o sucesso de um tratamento analítico? Parece incoerente, inconsistente, mas a transferência é capaz de trazer esta ambivalência à tona e atuar como um inimigo e ao mesmo tempo ingrediente fundamental para o sucesso de um caso clínico analítico.

Alguns temas desde o início foram abordados como pilares da psicanálise, e investigados por Freud. Como falar de psicanálise sem levar em conta o inconsciente, os sonhos, a sexualidade infantil, as pulsões? A transferência também ocupou o seu espaço nas bases fundamentais de um processo analítico.

Pensando em uma breve retrospectiva da história da Psicanálise, no final do século XIX e início do século XX houve grande interesse de Freud em busca de uma compreensão e elucidação da problemática da histeria. Influenciado por Charcot, e trabalhando em conjunto com Breuer, Freud se interessou pelo fantasma da histeria que assombrava a comunidade médica da época, que não dava conta de que o problema em questão deveria ser tratado por uma ótica psíquica, e não biológica.

A histeria colocou em cheque o saber médico que admitia somente causas biológicas, abriu portas para que a questão fosse abordada por outra perspectiva. Uma perspectiva que levava em conta o inconsciente e a complexidade do psiquismo humano bem como os efeitos que este poderia causar, inclusive efeitos psicossomáticos como era observável nas histéricas da época.

Métodos hipnóticos foram utilizados para que os pacientes histéricos revivessem seus traumas e ao reviverem suas experiências traumáticas o sintoma poderia desaparecer. Tal processo ocorria de maneira catártica, como em uma explosão capaz de aliviar a angústia e a tensão causada por um afeto ligado a representação traumática. Ao reviver o trauma, o afeto se descolava daquela representação, a partir de então esta carga de afeto ficaria livre, mas precisaria se ligar a outra representação. Aliviava, mas não resolvia, pois o sintoma poderia se deslocar, passar de uma representação à outra.

A hipnose dava luz à existência do inconsciente, mas não era suficiente para que houvesse uma suposta cura psíquica e física dos pacientes. Parecia faltar algo importante no tratamento. Por diversos motivos, Freud optou por abandonar o método hipnótico. Parecia não haver implicação subjetiva por parte dos pacientes, esses não reconheciam a causa de seus sintomas, eram incapazes de ligar o afeto a representação traumática, parecia haver uma força invisível e importante atuando no processo.

A hipnose também se fazia ineficaz na medida em que não era um método que poderia contemplar a todos, muitas pessoas não eram hipnotizáveis. Além disso Freud não era muito eficiente em hipnotizar seus pacientes. Um outro ponto, é que o que a pessoa falava hipnotizada, ela poderia também fazer da mesma forma quando estivesse acordada, embora isso não ocorresse com facilidade. Parecia haver uma resistência atuante e mais forte quando a pessoa estava em estado de vigília se fosse comparado quando a mesma estava em estado de hipnose. Havia sinais de uma força que parecia “jogar contra”, mas que paradoxalmente era necessária para o jogo acontecer.

A partir do abandono da técnica hipnótica, Freud passou a tratar seus pacientes de uma outra maneira, eis que surge a técnica da sugestão. Nesta fase, ele ainda assumia uma postura de autoridade médica, inclusive colocava a mão na cabeça dos pacientes e estimulava-os para que falassem. Porém sob este novo modo de tratamento, a posição médica e de autoridade parecia impedir que os pacientes falassem o que bem entendiam livres de julgamentos, parecia que a força oculta atuava ainda de maneira mais forte e a dificultar o acesso ao inconsciente.

Fez-se necessário uma nova reconstrução e reformulação da técnica, Freud recua da posição médica, e se coloca em uma posição de escuta. Parecer haver outras maneiras de falar que não são somente as formas racionais, o inconsciente parecia se manifestar em algumas situações como em atos falhos, sonhos, chistes etc.

Freud propõe então aos seus pacientes que tentem associar livremente, somente desta forma seria possível “driblar” esta força oculta e constante que impediria o acesso ao inconsciente. Da parte do analista, propõe que este fique em um estado de atenção flutuante, que se contrapõe a uma atenção proposital. Enquanto a segunda separaria o que é importante do que não é na fala do paciente, a primeira não separa nada, não dá maior ou menor importância a um trecho ou outro na fala do paciente, tudo é importante.

É nos pormenores que o inconsciente se manifesta, o analista deve então escutar tudo, inclusive o que não é falado, deixar que seu inconsciente se comunique com o inconsciente do paciente, escutar mais os significantes do que os significados, e perceber as manifestações do inconsciente.

E é aí que a relação entre analista e analisando pode ser uma chave de acesso e escuta destas manifestações aparentemente inacessíveis, é aí que a transferência passa a ser a resistência mais forte ao tratamento e ao mesmo tempo sua arma mais poderosa no processo analítico.

A partir do primeiro contato e chegada de um paciente ao setting analítico, o fenômeno transferencial já está em jogo. Antes mesmo disso, a transferência já está atuando no psiquismo daquele que procura análise.

A fantasia do que é a análise, quem indicou o analista ao analisando, ao que remete o nome do analista para o paciente, o que representa o lugar onde está localizado o consultório ao analisando, são exemplos disso.

São diversas fantasias que estão já povoando inconscientemente o psiquismo deste paciente antes mesmo que haja qualquer contato verbal com seu analista. A partir do andamento da análise, este processo transferencial vai se transformando e se modificando, funciona como um fenômeno vivo e em constante mutação, e deve ser manejado com muito cuidado pelo analista. Da mesma forma que a transferência é necessária para o desenvolvimento de uma análise, se mal manejada pode impossibilitar o tratamento e causar danos para o paciente.

Em uma análise bem sucedida, haveria de se manifestar o que Freud chamou de neurose de transferência. O paciente traz o inconsciente para o vínculo com o analista. Repete suas angústias na transferência com o analista. Reproduz e revive com o analista o que está em seu inconsciente recalcado.

Metaforicamente, traz seus fantasmas para o consultório, e tais fantasmas tomam forma na relação entre paciente e analista. Como combater os fantasmas sem eles presentes? Por isso fica impossível estabelecer-se a análise sem resistência, sem resistência na transferência.

A ambivalência é outro ponto importante e de caráter manifesto na relação transferencial. Em sua obra Freud faz uma diferenciação entre transferência positiva e negativa. As primeiras compostas por afetos ternos e amigáveis (que são armas importantes para combater a resistência), e recalque erótico, que ao lado da transferência negativa jogam a favor da resistência, mas ao mesmo tempo são fundamentais para o tratamento.

Na relação entre analista e paciente, este último revela como se relaciona com seu mundo objetal, e traz as repetições de seu funcionamento psíquico para o vínculo com o analista. Manejar a transferência, é uma das maiores dificuldades e ao mesmo tempo é a chave para que se desenvolva uma análise. Para isso, é importante haver uma escuta por parte do analista do que está implicado no vínculo com seu paciente, perceber as repetições e trabalhar de forma que a transferência permita o contato com o recalcado. Para isso é fundamental o processo de auto análise e de supervisão muito bem feitos pelo analista.

Somente a transferência é capaz de “libertar” o paciente de seus amores ocultos. Na transferência o inconsciente está manifesto, as resistências fazem com que os recalques sejam reproduzidos na relação com o analista.

Na neurose de transferência, pode-se dizer que aquilo que não pode ser recordado e está recalcado se realiza em ato. Pode ser por exemplo um hábito de chegar atrasado, ou cedo demais, ou ser muito pontual nas consultas, ou um ato falho do paciente em pagar mais ou menos ao seu analista sem perceber, ou diversas outras situações em que há um jogo inconsciente de posições entre analista e analisando.

Essas atuações aparentemente sem sentido é que devem estar sempre sob olhar analítico para que o manejo da transferência seja feito de forma a considerar todo este complexo jogo transferencial.

Aquilo que está sendo (re)vivido no vínculo paciente-analista, pode servir como uma aproximação das experiências psíquicas anteriores do paciente, e é nesse campo que pode aparecer a riqueza no trabalho analítico.

Há de se levar em conta que existe uma inscrição inacessível, esta anterior a qualquer representação, algo muito primitivo e ligado ao que Freud veio a refletir e trabalhar como pulsão de morte, que não é da ordem da representação psíquica.

Posterior a esta inscrição inacessível, porém, pode haver representações também inacessíveis por conta do recalque, mas que podem vir a ser elaboradas, é aí que consistiria a vitória analítica. A elaboração seria entrar em contato com um novo registro psíquico, regido por uma nova lei, uma forma de ressignificação.

Ficaria possível pela nomeação dar um reconhecimento psíquico à pulsão, à inscrição, e a partir daí propiciar um funcionamento psíquico diferente, mais autêntico, uma espécie de encontro com o seu verdadeiro ser.

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