Amor próprio ou narcisismo?

Narcisista, o adjetivo ganhou status de xingamento, e por vezes é ouvido em discussões acaloradas, pelas ruas, nas novelas e filmes. No linguajar cotidiano tem um peso forte e frequentemente vem acompanhada em nosso imaginário por outras palavras com potencial destrutivo: egoísta, arrogante, mesquinho.

Amor próprio, a expressão que também tornou-se lugar comum em nosso cotidiano:

“Amiga (o), tenha amor próprio, ele (ela) não vale a pena”.

“Você não pode abaixar a cabeça para seu (sua) chefe, onde está seu amor próprio?”.

O narcisismo é um conceito bastante complexo no campo da psicanálise. Não poderia ser capaz de abordá-lo com tamanha amplitude e profundidade, mas a grosso modo podemos dizer que o narcisismo é algo constituinte para nós, humanos. O bebê, antes mesmo de nascer já está sendo “narcisado”. Ao ser desejado pelos pais, na escolha prévia das roupinhas que vestirá, nas conversas com a barriga, na escolha da cor da parede do quarto, do nome, tudo isso contribui para que quando ele sair da tranquilidade do útero, haja aqui fora um ambiente “tranquilo e favorável” (como diria o funk) a sua espera. Mais do que “tranquilo e favorável”, um ambiente suficiente, protegido para que haja a possibilidade de o bebê viver a relação com sua mãe de maneira que possa ser narcisado por ela. É a partir desta relação que o psiquismo se constitui, em um ambiente confiável, que traga a possibilidade inclusive da vivencia de frustrações e angústias, também importantes para a formação psíquica.

Neste caso, quando há frio, o bebê dará o sinal ao ambiente (frequentemente pela via do choro), e saberá que embora tenha que esperar por alguns instantes, logo virá o cobertor que o acolherá. Caso não haja este ambiente “tranquilo e favorável” para que o bebê seja narcisado, qualquer separação, ou sensação adversa como fome pode ser vivido como aniquilador, não havendo a possibilidade de lidar com tamanha intensidade da ameaça que, neste caso, a fome será vivida como puro desamparo, não havendo a confiança de que será saciada.

Também é importante que haja por parte da mãe, a sensibilidade e a tranquilidade para não invadir este espaço a que Winnicott (psicanalista inglês contemporâneo de Freud) denominou de “ambiente suficientemente bom”. Uma mãe ansiosa e que antecipa a todo instante as necessidades do bebê, também causará impactos na constituição psíquica deste. Tão importante quanto se sentir seguro, é o espaço para que o bebê possa lidar com os estímulos do mundo externo, e sinalizar quando precisa de ajuda da “mãe suficientemente boa”. Esta o atenderá respeitando este lugar importante para que o bebê receba os estímulos externos, e tenha seu tempo subjetivo para acessar seu psiquismo e lidar com eles, e assim sucessivamente, de maneira que a cada experiência vivida seu mundo interno estará mais rico e forte.

Certa vez em uma palestra um psicanalista comentou que este processo seria como transformar uma caverna em um lar aconchegante. É como se o psiquismo do bebê chegasse como uma caverna e o narcisar amparado por um “ambiente suficientemente bom” fosse capaz de transformá-la em um lar aconchegante.

O narcisar o sujeito a partir de sua existência permitirá portanto que ele seja um adulto mais capaz de sentir o que é chamado hoje popularmente como o amor próprio.

A expressão “amor próprio” muitas vezes está relacionada à uma fantasia de independência, da capacidade de estar só. A mensagem é: ”você não precisaria de seu chefe, ou de seu namorado caso ame a si mesmo”. Verdade que a capacidade de se sentir suficientemente bem só, ou amar a si mesmo, pode ser importante para lidar com uma vida sempre pronta a colocar obstáculos, a lançar ocasiões que nos frustram a todo momento. É ilusório, porém, que o humano possa viver apenas com seu amor próprio. Precisamos do outro para viver, nos constituímos psiquicamente a partir da relação com este outro que originalmente está representado pela figura materna. Ao contrário dos animais, o humano nasce desamparado, e caso não haja a possibilidade de ser narcisado, viveríamos em uma caverna fria e escura, ou em uma casa com teto mas sem chão.

Já o narcisista do linguajar popular, ou aquele incapaz de enxergar o outro, talvez no processo de transformação de sua caverna em lar, os móveis foram tantos que taparam as janelas. A bolha materna necessária e protetora nunca foi superada, e há sempre uma ilusão de que é possível voltar para este lugar de que Freud chamou de “a majestade o bebê”. Ser narcisista, portanto, pensando pela ótica da psicanálise, é uma condição constituinte do sujeito, e está ligada com a história singular de cada um, sendo os primeiros anos de vida de grande importância e estruturante para nosso psiquismo.

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10 maneiras inusitadas de se sentir mais um gado no rebanho

Escolhi um título forte para este texto, creio que possa até gerar certo mal estar como primeiro impacto. A intenção era mesmo chamar a atenção e despertar curiosidade. Me inspirei em um fenômeno cada vez mais recorrente em nosso conectado cotidiano virtual. Quem nunca se viu curioso com um link de título forte, clicou e se sentiu logo em seguida frustrado e decepcionado com o conteúdo? Espero que não seja este o caso, pelo menos não é a intenção.

Os grandes portais da internet buscam antes de mais nada atrair cliques. Para isso o título tornou-se o ator principal, enquanto o conteúdo um mero personagem sem importância em um contexto medido pela quantidade de cliques. É só o clique pelo clique, não o seu clique, mas um clique qualquer. Virou número para as estatísticas em meio a tantos outros cliques capazes de produzir riqueza (ou melhor, dinheiro). Mais um gado no rebanho.

Mas se vivemos em um rebanho, não é melhor mesmo ser um gado? Resistir clicar para que? É como se houvesse uma força atuando e convocando a apertar o botão do mouse. E neste cenário surgem as infinitas listas criadas por um ser invisível e desconhecido, suposto detentor do saber:

10 dicas para subir na carreira

10 looks que vão bombar nesse verão

10 mais badalados restaurantes de São Paulo

10 programas imperdíveis para fazer a dois

10 passos para uma liderança eficaz

10 melhores hambúrgueres da cidade

10 formas de deixar o seu dia mais leve e feliz

10 conselhos para que você encontre sua alma gêmea

10 etapas para alcançar a plenitude

10 bares mais "tops" para curtir com os amigos

E daí ao infinito...

Sem se dar conta você está lendo todas essas listas, antes mesmo de se perguntar se quer mesmo achar um restaurante badalado, ou se gosta de hambúrguer. Programa imperdível? Pode ser, mas para quem?

Parece até haver um tom apelativo, é frequente o uso de palavras de potência. Imperdível, badalado, subir, bombar, eficaz, melhor, plenitude. Se atreva a não seguir a lista, e será um impotente. Siga a lista e será potente, terá sucesso! Será mesmo? Parece ser uma potência esvaziada, impactante por fora, mas oca por dentro.

Sigo a lista para que? Mais uma vez pergunto. Para quem? Perguntas que parecem deixar as cercas do rebanho mais visíveis. Assim passa a ser possível vislumbrar algo para além da cerca. Não há nenhum problema em ser gado, nem mesmo viciado em ler essas listas que nos seduzem! Não são as listas por si que nos aprisionam, mas o modo como interagimos com elas. É possível ser um gado livre em meio ao rebanho, um gado livre e leitor de listas. Mas neste caso as listas não terão um caráter de convocação imperativa, mas poderão ser fontes de criatividade. Quem sabe até possam estimular a construção de nossas próprias listas de interesse. Claro, isto se gostarmos de listas, caso contrário podemos jogá-las ao alto. Isto sim me parece uma potência mais genuína, que vem de dentro.

Os livros de auto ajuda hoje são best sellers, desta vez não é o número de cliques, mas a quantidade de exemplares vendidos que importa. Eles podem sim ajudar, aliviar. A auto ajuda pode nos fazer sentir gados mais adaptados ao rebanho em que vivemos. Haveria algum mal nisso? Creio que não, desde que como gado possamos ter a consciência de que há possibilidades de vida além das páginas (muitas vezes imperativas) de auto ajuda. Ou que o sentimento confortável de ajustamento seja mais benéfico do que a possibilidade de se sentir um gado livre (mesmo que desajustado ao olhar dos outros gados), fora das cercanias de seu rebanho.

Falando em ajustamento e adequação, não teria forma mais ajustada e adequada de terminar este texto, se não com um trecho da letra da música "Admirável Gado Novo" de Zé Ramalho:

Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem

À margem do que possa parecer

E ver que toda essa engrenagem

Já sente a ferrugem lhe comer

Êh, oô, vida de gado

Povo marcado

Êh, povo feliz!

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Psicanálise. Para quem?

Há duas perguntas muito frequentes que me fazem quando conheço alguém e porventura vem à tona o assunto da psicanálise:

- Você acha que todos deveriam fazer análise?

- Psicanálise é para loucos? (normalmente em tom de brincadeira)

Ambas as perguntas podem trazer em si suposições implícitas. A primeira de que sendo a psicanálise algo valoroso, deveria ser para todos, e a segunda de que a psicanálise poderia curar os loucos.

Creio que seja importante considerar o valor da subjetividade e individualidade de cada sujeito que pergunta. O que é ser louco para cada um? O que é ser louco para a cultura e sociedade em que estamos inseridos? Qual a sua compreensão de loucura no universo cultural e social em que estamos vivendo?

Devolver uma pergunta com outra pergunta é algo que pode ser perturbador, mas neste caso representaria algo importante. Possibilitaria compreender melhor o que não está dito (ou o que está implicitamente dito) na pergunta. Seria também uma maneira de implicar quem pergunta na questão que fez.

Um pouco parecido com um processo de análise, em que a dupla paciente/analista busca perguntas que podem dar luz a algo que sempre esteve atuante, mas que até então esteve presente somente de modo inconsciente. Tal trabalho, só é possível com o engajamento do paciente (e do analista) no processo, e possibilitaria uma maior compreensão do mundo interno deste, o que faria com que o leque de possibilidades para lidar com suas demandas do mundo externo fique mais elaborado.

Isso desmistifica um pouco a figura do analista como um guru, neutro, sabedor de todas as respostas, pronto sempre a dar uma interpretação sagaz que resolverá os sofrimentos de seu paciente. Ao contrário, a análise demanda um analista humano e perceptível, e um paciente que veja sentido no processo, caso contrário não há possibilidade para que o encontro seja rico, espontâneo e criativo.

Para não ficarmos somente no âmbito das perguntas, vou tentar responde-las do modo mais objetivo possível a partir de minhas experiências (tentando me desvencilhar do que um suposto dogma psicanalítico diria). Minha intenção, porém, é que as respostas possam causar mais reflexões do que conclusões.

Você acha que todos deveriam fazer análise? Creio que a análise seja para todos que querem se perguntar, que podem se perguntar, ou mesmo àqueles que não tem ainda condições de fazer perguntas, mas precisam de auxílio para construi-las.

Aos que perguntam buscando uma resposta definitiva e pré-determinada, àqueles que querem ser orientados e conduzidos, aos que gostariam de uma solução rápida e efetiva de seus problemas, honestamente não acho que valha a pena buscar a psicanálise. E aos que estão bem e não vê sentido em questionar-se idem, a psicanálise não é para todos, é para quem quer. E não há nenhum desconforto em dizer isso, seria muita pretensão e onipotência achar que todos devem buscar análise.

Àqueles que têm vontade, mas sofrem com algum receio, o tempo ou alguma experiência vivida podem levar a busca de auxílio pela psicanálise quando se sentirem confortáveis com isso. Sobre a segunda pergunta. Psicanálise é para loucos? A cultura e sociedade em que vivemos faz pressão para que caminhemos no sentido da normalidade. Uma normalidade que ao ser alcançada torna-se uma insígnia social. Sujeito normal, bem sucedido. Bem sucedido em se ajustar a uma normalidade, mas nem sempre isto representa ser bem sucedido na possibilidade de viver de modo espontâneo com seu verdadeiro self. Se analisarmos sob esta ótica, eu me atreveria a dizer que a psicanálise trabalha no sentido contrário da normatização do sujeito nesta corrida imperativa pela felicidade e por ser bem sucedido, busca esta que não raramente impõe ao sujeito contemporâneo a abdicação de seu verdadeiro ser.

A psicanálise iria na direção de possibilitar que o sujeito entre em contato com seu verdadeiro self, mesmo que isto gere um sofrimento. Sim, é permitido sofrer, e ao reconhecer que o sofrimento tem seu lugar em nosso psiquismo, o contato com o mundo pode ficar mais leve e espontâneo. Ao se conhecer melhor, os momentos de felicidade podem se tornar não permanentes, mas genuínos enquanto possíveis. Respondendo a pergunta diretamente, diria que a psicanálise não é essencialmente para os loucos, mas também para os normais que permitirem reconhecer suas loucuras.

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A formação de um analista

O texto abaixo foi escrito na ocasião de conclusão do curso de formação que realizei no CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos). Acho interessante compartilhar aqui no site, pois trata sobre um tema relevante para quem tem interesse em atuar na área. O processo de formação de um psicanalista vai além de um diploma ou um certificado de conclusão de um curso, mas muito da construção particular de um caminho e a autorização interna para se tornar analista. Abaixo algumas pinceladas sobre o percurso pelo qual iniciei minha prática clínica:

A primeira questão que surgiu e me despertou a atenção ao iniciar esta escrita foi: “Estou finalizando minha formação em Psicanálise?’ Se a resposta fosse positiva, poderia ser mais coerente definir este texto como algo conclusivo, mas fico mais à vontade o tratando como uma reflexão.

A reflexão pode levar a uma conclusão? Uma conclusão pode ser definitiva? Há fim para a formação de um analista?

Perguntas geram reflexões, que são importantes para criar algo. Respostas, por sua vez, tendem a ser perigosas na medida em que podem concluir algo e fechar as portas para a beleza de uma reflexão.

Também é inevitável dizer que sem respostas não há construção. Não é a toa que a expressão “Freud explica” se tornou tão popular. Freud criou a Psicanálise, dedicou uma vida refletindo e respondendo à indagações por longos anos até o final de sua vida. Foi questionado por si, por seus colegas médicos, pela Sociedade de Psicanálise, por sua família, pela cultura e tradições rígidas da época.

Construiu uma Teoria sólida, baseada em muito trabalho, em muita reflexão, e grande dose de convicção, mas uma convicção que não se fecha em seu fim, mas está aberta a novas possibilidades. Como creio que deve ser a escuta de um analista, atenta, convicta, mas flutuante, nunca conclusiva.

Freud era convicto na construção de suas teorias, mas também convicto da complexidade do psiquismo humano, e isso permitiu que este inventasse e, mais importante, reinventasse a Teoria Psicanalítica ao longo de sua construção, dando fim a uma obra inacabada.

“Freud explica”, mas antes de explicar “Freud indaga”, Freud refletiu muito antes de concluir. E deixou sua obra para ser questionada, refletida, debatida, e reinventada por seus sucessores sem distinção de títulos.

Como Freud acreditava, parece ser incabível definir uma regulamentação da Formação em Psicanálise, afinal como regulamentar o inconsciente? Como definir o caminho de uma formação de um analista, se não considerando a individualidade do processo de cada sujeito postulante a atuar como analista?

Feita esta pequena introdução passarei agora a uma breve reflexão sobre o processo de minha formação em Psicanálise na instituição Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP).

Achei por bem reforçar alguns momentos que considero cruciais no processo de minha formação. Embora acredite que um analista está em constante formação e que não haja um momento conclusivo e final deste processo, acho que existem ciclos e marcos importantes, partes de um todo que não se completará e viverá sempre na falta. O todo sem falta seria uma mera ilusão. Neste caso a falta não angustia, mas alivia.

Fazendo um paralelo com a Obra de Freud, existiram momentos marcantes e fundamentais para construção de sua Teoria, como o estudo das histerias, a publicação de Interpretação dos Sonhos, os Três Ensaios sobre a Sexualidade, Introdução ao Narcisismo, a passagem da Primeira Tópica para Segunda Tópica, o ‘surgimento” do conceito de Pulsão de Morte, dentre tantos outros. Ao construir algo com tanta paixão e dedicação, Freud abriu espaço para que outros grandes mestres pudessem criar novas formas de pensar a Psicanálise, e não acredito que um dia o ciclo seja fechado, mas continue vivo e em constante movimento.

A partir de várias influências e leituras, pude aos poucos ir me construindo e desconstruindo como analista, e o caminho inacabado de minha formação, pode ser dividido até então em 3 pilares de sustentação:

- Interesse na Psicanálise e início do curso de formação.

- Início de minha própria análise.

- Início de minha atuação como psicanalista.

1 – Interesse na Psicanálise e início do curso de formação

O início da formação de um analista, creio que se dá sem que haja consciência deste. Uma pergunta que acho interessante e desde o começo do curso eu me fiz foi ”que fantasia desperta em mim ser um analista?”.

Ainda não tenho uma resposta conclusiva para a pergunta, mas em minha própria análise tive reflexões sobre ela, e acho que esta indagação pode ser rica para a construção de um analista.

Não me recordo quando foi a primeira vez em que ouvi falar, ou tive contato com a Psicanálise. Apesar de não saber dar nome, desde criança me intriguei e fui bastante curioso sobre como o meu funcionamento e o dos demais ao meu redor pareciam estar condicionados a uma força que era ao mesmo tempo perigosa e fascinante. Atuante, mas invisível, insistente, forte, mas intangível.

Tenho em minha família pai e tio que atuam como Psicanalistas. Possuo algumas memórias infantis de conversas entre eles sobre o que me parecia ser maluquice na época, mas que me tocavam de certa forma, era uma maluquice que naquela ocasião eu não pude assimilar e participar das discussões, mas que de alguma forma fazia sentido para mim.

Levei um tempo até procurar saber quem era Freud, Lacan ou Winnicott e buscar leituras sobre a Psicanálise. Inclusive fiz um caminho um tanto quanto reverso quando penso em formação de um analista.

Primeiro tive contato com a teoria, mais intensamente ao iniciar o curso de formação, e somente depois dessa aproximação teórica é que fui procurar iniciar minha própria análise.

A princípio me pareceu um caminho reverso, mas não errado, afinal o que é certo e errado quando estamos falando de psicanálise? Existem regras éticas, temas fundamentais, pilares importantes para a formação de um analista, como estudo da teoria, auto análise, e prática da escuta analítica, importância da supervisão, mas difícil dizer qual o caminho a ser seguido. Hoje estou convicto de que cada analista deve se formar a sua maneira, com seus recursos, com a particularidade de sua história, construindo a sua clínica psicanalítica, respeitando os pilares, mas dando seu próprio contorno.

Escolhi estudar no CEP pois me pareceu uma instituição que desde o início deixou bem claras as regras e pilares, mas que respeita esta individualidade e dá espaço para a pluralidade. Pluralidade que não distorce a essência da psicanálise, que propicia pensamentos psicanalíticos diversos, com conteúdos que serão ferramentas para a formação de um analista.

No desenrolar do curso, tive uma percepção de que ele é estruturado de certa forma como se desenvolve um processo analítico.

A princípio fazemos as primeiras entrevistas, estabelece-se um contrato com muita clareza, e aos poucos, apoiados por uma construção teórica e pelo desenvolvimento da escuta estimulada em grande parte pelos momentos de discussão clínica, nos tornamos senhores de nossa formação, autores de nossa obra, como ocorre na construção dos trabalhos a cada ciclo, estimula-se o desenvolvimento de uma identidade necessária para a formação de um analista.

2- Início de minha própria análise

Iniciei minha análise ainda no primeiro ano de formação no curso do CEP, e foi fundamental para os assuntos que estudaríamos a partir daí. Como estudar a transferência sem nunca a ter vivenciado, como falar de resistência sem ter experimentado?

Poderia sim ser capaz de explicá-la, de conceituá-la, de refletir sobre o tema, mas nada a se comparar com sentir. Em minha opinião a teoria em certa medida tem grande valia para a prática, mas não se sustenta só para os postulantes a analistas.

Hoje entendo ser possível um aluno se formar sem esta vivência de fazer sua própria análise, mas seria impossível para a formação de um analista passar desapercebido por este processo.

Para tornar-se senhor de sua obra, é preciso se haver com suas questões, estranhamentos, fantasias e desejos. Freud foi o precursor, não fez sua própria análise de modo convencional com um outro analista, mas acredito que se indagou muito sobre suas questões, e embora não à maneira convencional, encontrou-se com o seu desconhecido íntimo. Acredito também que devem ter sido muitos os interlocutores que o ajudaram neste processo de autoanalise e de construção de sua obra psicanalítica, como Fliess, Breuer, ou seus familiares por exemplo.

3 - Início de minha atuação como psicanalista.

Difícil apontar o momento oportuno de se lançar, mais uma vez acho que passa muito pela subjetividade individual neste processo complexo da formação de um analista.

Trabalhei em minha própria análise esta autorização para ser um analista, o que isto representava para mim, e o que era necessário para ser um analista.

E só foi possível quando a compreensão e a autorização vieram de dentro para fora, e não de fora para dentro, como acredito que deve ser em um processo de análise mesmo. A interpretação sem a elaboração interna não tem efeito positivo para o andar de uma análise. Certa vez no curso de formação uma frase me tocou, dizia “que a melhor das interpretações é aquela que vem do paciente”.

Fez sentido para mim passar por esta autorização interna visando atuar como analista.

Não é o fim de um curso que vai dizer se estou formado como psicanalista ou não, mas a experiência e construção interna. Importante do curso é oferecer substância e ferramentas que possibilitem a construção interna.

E a partir das minhas primeiras experiências atuando, cada vez fizeram mais sentido as diversas etapas e momentos do curso. Também foi fundamental a supervisão e discussão dos casos.

Quanto mais penso com a ajuda de colegas e professores, mais janelas são abertas, mais hipóteses são criadas, mais curioso fico, posso até dizer que mais confuso fico, mas ao mesmo tempo mais convicto. Convicto de que não existe conclusão para algo tão complexo como é o psiquismo humano, convicto de que a reflexão analítica pode ter bons efeitos, e convicto de que cada história de análise na clínica passa por um manejo diferente, mas que cada analista tem sua essência e seu estilo determinado por sua constituição ao longo se sua historia única e particular.

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Identidade produzida

Trazendo o tema da identificação para um contexto atual em que as redes sociais passaram a ser grandes mediadores na relação entre as pessoas, a internet pode funcionar como um grande medidor narcísico. O número de cliques, o número de seguidores, o número de curtidas, o número de acessos à página de um perfil, são postos como indicativos concretos e indiscutíveis para que se quantifique o quão amado é um sujeito. E quem de nós não quer ser amado? Pode ser difícil admitir, mas a verdade é que nenhum de nós está imune a isso. O humano não vive só, precisa do amor do outro para que se constitua psiquicamente.

A vida virtual, que promete ser um grande facilitador de nossas relações, paradoxalmente parece só fazer aumentar o grande vazio do sujeito, que é constantemente estimulado pelos meios de comunicação. Insistentemente, e imperativamente rende-se à ideia de que o vazio pode ser preenchido, ou comprado.

As curtidas, os seguidores, o número de cliques e amigos virtuais passam a ser uma das convocações para que se preencha esse ideal. E o que faria mais sucesso nas redes sociais seria um conteúdo com o qual o maior número de pessoas se identificassem. A página de um perfil na rede social, assim, apresenta-se como um cardápio, cheio de adjetivos, indicativos de quão interessante possa ser tal pessoa real e virtual simultaneamente. Uma olhada e já poderíamos dizer se aquela figura tem potencial para ser interessante de acordo com o ideal de cada um. A internet então passa a ser um mundo para criação de vínculos virtuais infinitos, em que o sujeito se identifica e tem o desejo narcísico de que o maior número de pessoas se identifiquem com ele, de preferência milhares de pessoas, afinal o mundo virtual não limita barreiras, é um mundo aparentemente infinito de possibilidades. Há uma sensação, porém, de que esses vínculos não se ligam, mas como poderiam ligar-se se ninguém os vê? O mundo virtual é wi-fi! Sem os fios visíveis, podemos somente imaginá-los! Nem por isso deixam de provocar a sensação de que são reais.

No mundo virtual, existe a possibilidade da criação de um perfil a bel prazer de cada um. Talvez nesse perfil ideal esteja a personalidade com a qual gostaríamos de ser enxergados, e não aquela com a qual de fato nos deparamos. Claro que nem sempre isso acontece, mas nesses casos não há possibilidade para um investimento na personalidade genuína e espontânea, mas a que resta é uma identidade produzida e moldada pelo que se imagina ser bem aceito pelo mundo. Mundo que cobra, e caro!

O virtual passa então a ser manipulado onipotentemente transformando-se em uma ferramenta de defesa para que não emerja o verdadeiro ser (que não consegue simplesmente existir e ser, em um ambiente que cobra adjetivos, completude e perfeição), levando à construção de um falso ser adaptativo, embora real e acessível aos cliques. Seria como a construção de um personagem, que em dado momento não sabe mais reconhecer o que é de si e o que é do personagem, e assim o falso e o real fundem-se. Com este cenário não existe ser ou viver, existe o estar para sobreviver.

Para que o personagem não desapareça da trama, ele deve saber atuar. É como se o personagem tivesse a função de proteger a pessoa real do ator. Neste caso, porém, a cortina nunca se fecha indicando o fim do espetáculo, e então a ficção deixa de ser percebida como ficção e passa a ser a vida em cima de um palco, sem momentos para a privacidade e espontaneidade dos bastidores ou camarins (locais tão importantes, quase que sagrados para o artista). Assim, o artista fica muito enredado pelo roteiro e suas falas, e pouco pode emergir o contato com o sentimento e a essência de cada cena.

Me fez lembrar dos reality-shows, em que fica difícil estabelecer e visualizar os limites do que é falso e o que é real. Não à toa a cada início de BBB, a discussão pública se acirra. As pessoas parecem estar cansadas de não enxergar esta linha do ator e da pessoa real, talvez por que já vivem constantemente em suas vidas com esta angústia. Não haveria motivo, assim, para reviver esta sensação ao assistir uma ficção que se auto denomina “o jogo da vida real”.

Falando em atores moldados, personagens que perdem espontaneidade, me vem em mente um paralelo com a política. As campanhas políticas também são tentativas de criação de um candidato ideal, capaz de atingir o maior número de membros de uma coletividade. O mestre deve conduzir a massa e ocupar a posição de ideal para esta, de forma que a identificação seja capaz de ligar o maior número possível de membros de uma coletividade capaz de elegê-lo.

Não é à toa que hoje se usa com tanta frequência a palavra produção. Produz-se um político, produz-se um jogador de futebol, ou um músico, e muitas vezes a essência da música é deixada de lado, o talento do jogador é ofuscado pelo corte de seu cabelo ou a cor de sua chuteira, e o conteúdo da proposta do político perde o valor em detrimento de como ele deve se portar no debate eleitoral. Importante é identificar o público alvo para vender bem a embalagem do produto. Resta saber se o público alvo se identifica com o produto em sua essência e utilidade, ou com a embalagem fruto de uma produção. A primeira opção me parece muito mais livre e atrativa, mas difícil de ser alcançada pensando no contexto do que alguns autores chamam de sociedade do espetáculo, ou sociedade das embalagens, das cascas, da superficialidade, da futilidade, da falsidade, da estética, da vitrine, etc. Há muitos nomes possíveis, estejam livres para denominar como preferirem.

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O consumo: sujeitos clientes ou clientes sujeitos?

Vivemos em uma sociedade na qual o consumo adquiriu grande valor simbólico. Adquirir bens, sejam eles necessários ou não, faz parte da experiência cotidiana. Para estar inserido neste contexto social, espera-se que o sujeito constituído tenha poder de compra, caso contrário será um sujeito incompleto, marginal.

Um sujeito com poder de compra constitui-se como cliente, ao contrário daquele que não possui dinheiro, incapaz de comprar não poderá ser cliente. Se a máxima de que o cliente tem sempre razão é verdadeira, aquele sem a possibilidade de comprar jamais poderá ter razão, nem sequer poderá ser ouvido, enxergado, ele está lá mas de certa forma não existe. Pode um dia passar a existir, desde que se constitua e se torne um sujeito consumidor, um cliente.

A partir dos pensamentos de Freud sobre a nossa constituição psíquica, a primeira experiência de mamar jamais será a partir somente da função de nutrição, de alimentação ou de sobrevivência. A partir do contato com o seio materno e o prazer da sucção, tal inscrição do prazer estará presente e será (re)vivido em experiências posteriores. O prazer da primeira sucção irá se sobrepor ao instinto de sobrevivência do nutrir-se.

Fazendo um paralelo com a experiência da compra e da constituição de um cliente pode-se pensar que há também no consumo esta plasticidade entre a necessidade e o prazer. A princípio compra-se um carro para se locomover, um relógio para saber as horas, um casaco para se proteger do frio. A partir da experiência prazerosa de ser reverenciado por ter comprado tais bens, o sujeito cliente passa a reviver em suas futuras compras o prazer da primeira mamada, a majestade o bebê passa a ser reconhecida ou revivida e o sujeito experimenta a posição da majestade o cliente, cliente que tudo pode.

Neste panorama, o utilitário passa a ser acessório. A moda, o design, o marketing ganham cada vez mais influência na relação do sujeito com o mundo externo, e ostentação passa a ser uma necessidade, tão necessária de ser suprida quanto a fome e o frio.

Exemplos não faltam, quantas pessoas hoje usam relógio para ver as horas? Quem vai comprar um carro e não olha para o design? Ou os que usam óculos sem grau, sem o menor intuito de enxergar melhor. Na equação da forma e conteúdo estamos cada vez com mais forma e menos conteúdo, menos sujeitos e mais clientes.

Tal ideia relaciona-se ao que o sociólogo Polonês Zygmunt Bauman chamou de sociedade líquida, em que as relações humanas passam a ser cada vez mais frágeis e o sujeito humano de certa forma é transformado em sujeito mercadoria, o que aqui neste texto estou chamando de cliente sujeito. Uma época de fluidez, insegurança, incerteza, líquida, na qual a lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade predominam. Segundo Bauman, esta lógica contemporânea em que vivemos hoje retirou de palco toda a fixidez e referenciais morais da época anterior.

Apesar desta marca da contemporaneidade, não é de hoje que o estudo da psicanálise é procurado por marqueteiros e até mesmo pastores, com objetivos totalmente distintos dos de Freud quando este se debruçou sobre a compreensão do psiquismo humano. A intenção seria da transformação dos sujeitos em consumidores. Consumidores de sua marca, ou clientes de sua Igreja.

Seguindo a palavra e a tendência ditada pelo marketing hoje, podemos dizer que estamos em um processo de gourmetização da vida. Oriundo do vocabulário francês, a palavra gourmet caracteriza tudo aquilo que representa charme, exclusividade, elegância e sofisticação. O termo frequentemente era associado à gastronomia, para diferenciar a alta cozinha das demais. Um prato gourmet seria portanto mais elaborado, com ingredientes mais caros e exóticos, um prato único e diferenciado.

Aqui mais uma vez os conceitos psicanalíticos podem entrar em cena. O falo, na abordagem Lacaniana, representa o que falta para a plenitude, o significante de uma falta, ou o significante de um desejo, na medida em que somente há falta quando existe desejo e vice-versa.

Nesse contexto, o gourmet seria uma forma de falsamente alcançar esta plenitude ilusória, esta diferenciação, ao comer um prato gourmet, a majestade cliente se sentiria plenamente realizada, afinal aquele é um prato único, diferenciado, o melhor de todos os pratos feito exclusivamente para você.

Porém a gourmetização também não escapa da efemeridade da modernidade líquida da qual falava Bauman. O termo passou então a ser usado em diversas situações cotidianas, devido aos efeitos positivos de seu significado comercialmente. Sorvete gourmet, pipoca gourmet, até água gourmet, e o conceito até saiu da gastronomia, não me deixam mentir aqueles que podem desfrutar de suas varandas gourmet, mais plenas do que as varandas comuns, pobres delas.

Os verdadeiros criadores da gourmetização hoje já se sentem invadidos por aqueles que banalizaram o termo, terão de criar neologismos ou mesmo adaptar novos termos, boutique ou cool ou trending ou seja lá qual for o próximo efeito que o marketing produzirá, por que não?

É uma busca infindável pela diferenciação, por se sentir completo, por alcançar a plenitude. Neste aspecto o consumo é capaz de suprir superficialmente a nossa ferida narcísica, sacia artificialmente o desejo do se fazer completo. Enquanto não lançarem o Iphone 7, é possível para o cliente sujeito ter a ilusão de que é inteiro com seu Iphone 6, onipotente, mesmo que por um breve e ilusório momento, é a liquidez imperativa do consumo.

De certa forma, ao nos relacionarmos com o consumo, estamos também nos relacionando com nossas angústias mais primitivas. Antes de sermos clientes consumidores, somos sujeitos psíquicos envoltos por pulsões. Infelizmente ou felizmente ainda não existe um raio gourmetizador do sujeito, o leite materno jamais será gourmetizado e viveremos na falta até o último dia de nossas vidas, sendo sujeitos clientes ou clientes sujeitos.

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