Tons carnavalescos: o acesso ao lúdico

Topa embarcar em uma viagem fantasiosa?

Imaginemos dois personagens.

O primeiro se chama Folião, sujeito engraçado, brincalhão, de sorriso fácil, expressivo, parece ter uma mola no corpo, veste sempre roupas coloridas, amante fervoroso de confete e serpentina.

O segundo é o Sr. Caxias, sujeito rígido, cintura dura, apreciador dos bons valores, cumpridor de suas tarefas, não gosta de sair da rotina, odeia o carnaval. Se pudesse entrar no freezer, ir à Islândia, ou ficar em coma para despertar só depois da quarta feira de cinzas, ele o faria sem hesitar.

Possivelmente já topamos com a representação desses dois personagens em nossas vidas, sejam eles expressos em nossos amigos ou parentes, ou mesmo como figuras de nosso mundo interno.

Se houvesse  uma entrevista de emprego hoje, qual desses personagens lhe vestiria melhor? E para ir desfilar em um bloco de carnaval? Prove imaginá-los. Como eles estão vestidos em sua imaginação?

O carnaval nos convida para uma grande brincadeira, onde homem pode se vestir de mulher e vice-versa. Os tabus são (temporariamente) suspensos pelo viés do humor. O imperativo desta festividade é se expressar sem medo, voltar a ser criança, se livrar da vergonha e deixar a autenticidade em primeiro plano. Abre-se uma janela para o encontro com a fantasia, com a criatividade, com o lúdico, com a espontaneidade.

Winnicott (pediatra e psicanalista Inglês), em sua teoria, abordou muito a questão do brincar como sendo uma capacidade emocional, um estágio psíquico elaborado, um indicativo de saúde mental.  Por esta perspectiva, poder encontrar o seu Folião interno tem grande valor, e nem sempre há a possibilidade deste encontro. Todos nascemos com uma potencialidade para o brincar, mas para desabrochar o jogo da fantasia, é preciso que haja um ambiente capaz de prover cuidados.

Rir de si mesmo, fantasiar, existir espontaneamente, acessar tons de cores variados e poder circular por esses tons de modo mais flexível, não é, portanto, trivial. Encontrar seu Folião é ter recurso psíquico, acesso ao privilegiado espaço do brincar.

Pensar na capacidade do brincar e do criar como espaço fundamental para que haja saúde psíquica parece contraditório, em uma cultura que privilegia a objetividade em detrimento da subjetividade. Fazer, ter boa performance, cumprir metas, competir, são demandas permanentes em nosso cotidiano. Interessante observar que a cada ano o pré carnaval começa mais cedo e o pós carnaval termina mais tarde, sem contar os carnavais fora de época espalhados pelo Brasil.

Será que está faltando carnaval em nossas vidas?

No jogo carnavalesco há uma regra implícita. Assim que a música acabar e o bloco passar pela avenida, saia pela área de dispersão, tire sua fantasia de Folião, e dê espaço para que o Sr. Caxias volte do coma para assumir o controle. Não deixe que eles se encontrem. Imagine que absurdo seria caso Folião se fantasiasse de Sr. Caxias ou Sr. Caxias se fantasiasse de Folião. Seria uma subversão das regras do jogo.

Sabe aquela frase que muitos usam no natal? “Que o espírito natalino possa estar presente em todo o ano, e não só no natal.” Seria loucura replicá-la para o carnaval? Que o espírito carnavalesco possa estar mais presente durante todo o ano. Leia-se aqui “espírito carnavalesco”, como aceitação das diferenças, expressão cultural, espaço lúdico, que nos permite acessar o nosso Folião criativo e espontâneo sem ter que mandar o pobre Sr. Caxias à Islândia. Esse é o carnaval que todo Folião quer viver com alegria.

Existe também o avesso desse carnaval romântico. Brigas, comas alcoólicos, arrastões, abusos sexuais, furtos. Esse é o carnaval que o Sr. Caxias não suporta. E a velha e recorrente frase: “Ah, mas é carnaval! (vale tudo)”. Tal afirmação é conivente com a violência, não reconhece a vítima e a comprime em um pacto perverso que mata qualquer possibilidade de Folião aparecer para brincar.

A escassez de espaços carnavalescos durante todo o ano estaria relacionada ao surgimento desse carnaval maníaco e sem lei, onde violência e confete podem proporcionar um trágico encontro? A falta no dia a dia de espaços criativos onde o brincar é estimulado, seria uma das possíveis razões para que se viva o feriado de carnaval como se o mundo fosse acabar amanhã? Quando o apocalipse é anunciado, a barbárie naturalmente entra em cena, afinal, ninguém samba quando está indo em direção ao precipício.

Mais carnaval (lúdico) e menos carnaval (maníaco), seria possível? Sr. Caxias e Folião cantarolando na mesma avenida, uma utopia que só o carnaval permite imaginar, pelo menos até que venha a ressaca da quarta feira de cinzas, e nos faça acordar de um belo sonho com marchinhas, serpentinas, confetes e alegria.

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A idealização da família margarina

Você já deve ter visto um comercial de margarina. Dia ensolarado, pessoas bonitas reunidas, mãe, pai, avós, netos, cachorros, arco-íris. As propagandas estão cada vez mais criativas, logo é capaz de aparecer um unicórnio no cenário que define o mais puro estado de felicidade.

O quanto este modelo de família ideal nos afeta?

Do ponto de vista de nosso psiquismo, a família representaria o cuidado inicial de que precisamos para viver. Cuidados físicos, afeto, as primeiras experiências e sensações de ser estão intimamente ligadas à relação com nossos primeiros cuidadores. O bebê quando nasce é pura sensação, e depende de um ambiente que o acolha e atenda suas necessidades para que pouco a pouco possa se constituir, se integrar. Aos poucos as pessoas podem ser sentidas como diferentes do bebê, o fora e o dentro, o "eu" e o "não eu", passam a ser reconhecidos. As pessoas reais e as experiências com elas passam então a ser referências fundamentais para que haja a possibilidade de identificações.

Os membros da família (ou primeiros cuidadores), em seu relacionamento com o bebê, são de fundamental importância nesta constituição do ser. O bebê precisa de olhar, de contato, de cuidado, de afeto. Ao contrário de outros animais, nós humanos precisamos dessa ligação como outro. Somente a partir da relação com o outro é que podemos existir e ser individualmente. Basta imaginar a cena de um parto, o que seria do bebê não fosse a presença de outros que possam acolhê-lo em sua chegada?

E não é sempre que essas primeiras relações são favoráveis. Não quero passar a impressão de que exista o jeito adequado e específico de relacionamento inicial saudável, mas que os primeiros cuidados são bastante importantes para nosso desenvolvimento, isso já pode ser comprovado por estudos e observações. Presença de outros com afeto pela criança, do jeito que for, da maneira possível, mas presentes. A não ausência é importante, e quanto menos ansiosa e aflitiva ela for, melhor. Existiria a perfeição? Existiria a família perfeita margarina? Existiria o unicórnio? Acho que até existem sim, mas em nossas fantasias, de forma idealizada.

Idealizações que ganham vida pela via do cultural. Questões bem anteriores ao nosso nascimento. A família margarina está enraizada nos pilares da Igreja Católica e outras religiões. A família como representação da preservação de uma tradição, o sobrenome e linhagem como uma perpetuação do poder, a família como legado e marca daqueles que já se foram, muitas vezes a família passa a ser uma carga bem pesada a ser carregada. Parece até que isso tudo é papo de séculos e séculos passados, mas mesmo suas origens habitando tempos tão distantes, tal ideal de família ainda está muito vivo e presente em nosso dia a dia, direta ou indiretamente. No caso das propagandas atuais de margarina, o apelo é para o consumo, afinal as famílias margarinas compram, movimentam indústrias, são grandes mercados alvos.

Mas como é a família margarina hoje? Ela está ganhando várias formas diferentes se comparada à imagem polêmica e rígida da tradicional família Brasileira. Adoções, casais homossexuais, mães ou pais solteiros, padrastos, madrastas, são as legítimas famílias de hoje. Aos poucos a imagem da família tradicional vai mudando, mas creio ser ingenuidade acreditar que suas raízes foram extintas. São marcas profundas de séculos e séculos de existência. Por mais que hoje o discurso atual seja de liberdade e flexibilidade, a imagem da família margarina estática e como modelo ainda é bem presente e atuante na cultura e consequentemente em nosso psiquismo ou vice versa.

A cultura está intimamente ligada ao nosso desenvolvimento psíquico, não se pode traçar uma linha que separa o que é o mundo de fora com o que é o nosso mundo interno, ambos estão mutuamente e constantemente em relações recíprocas. E esses ideais estão enraizados em nosso imaginário, em nossas relações, e muitas vezes é bastante sofrido viver em uma família real, com problemas reais, e ao mesmo tempo ter de sustentar a ilusão da tradição e da idealização desse modelo margarina vendida nos comerciais.

Cada um lida como pode. Alguns se preocupam em manter a embalagem perfeita, pouco se importam com o conteúdo do produto (mesmo sabendo que por dentro está estragado). Outros vivem e acreditam na qualidade da embalagem e da margarina que tem dentro, esses são os reféns da idealização, mas que se sustentam nela, nem acho que seja uma questão de escolha, mas a idealização pode ser analisada como uma sustentação, um apoio, uma base sem a qual não é possível existir, portanto, uma defesa que tem sentido de estar ali. Há também os que passam a perceber que a margarina não é perfeita, é o que é, e procuram desfrutar de seu sabor como possível for, sem carregar o peso de sustentar uma embalagem bem produzida. Cada um faz o que dá, enxergar ou não o unicórnio nem sempre é questão de opção. Aguardemos os próximos comerciais de margarina, desfrutemos do que for possível em nossas famílias, sejam elas famílias de origem, de sangue, ou mesmo famílias genuínas formadas pelos encontros da vida.

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A impossibilidade de habitar o agora

Uma queixa frequente da atualidade é a impossibilidade de estar no presente. O corpo físico está aqui e agora, mas há uma sensação de irrealidade, não pertencimento, falta de sentido.

Para facilitar o entendimento do que estou querendo expor, não faltam situações cotidianas como exemplo:

Jantar. A habitual cena do casal em um restaurante, cada um em seu celular. Corpos presentes, mas perde-se o prazer de saborear o alimento, curtir o ambiente, desfrutar da companhia um do outro, e assim dar sentido à experiência de estar ali, naquele instante.

Balada. Despertar no dia seguinte de ressaca, não se lembrar da música, da dança, das conversas, das risadas, mas valeu. Valeu mesmo? Ao acordar a pergunta martela junto à dor de cabeça. Seria insuportável encarar o fato de que não valeu! Quando será a próxima?

Viagem de férias. É preciso conhecer todos os pontos turísticos indicados pelo guia comprado na livraria. "Mas olha que belo parque, que tal parar um pouco para descansar e aproveitar este belo entardecer? Não pode, não vai dar tempo, o museu vai fechar. Museu do que? Não importa, se está no guia é bom!" Na volta vem a clássica pergunta. "A viagem foi boa? Foi ótima, todos os pontos turísticos foram visitados com sucesso!" Foi ótima mesmo? A pergunta que martela internamente, mas melhor não ouvi-la, quando será a próxima viagem?

Trabalho. Promoção. "Parabéns, vamos comemorar, está feliz? Claro, vou ganhar mais, o duro é que agora vou ter que ficar no escritório sem hora definida para sair, pode ser que eu fique sumido por um tempo." Está feliz mesmo? A pergunta martela, mas subitamente se esvai do pensamento. Quem não estaria feliz? Quando será a próxima promoção?

Vestibular. "Passei na melhor faculdade de administração! Que bom, estou muito contente por você, gosta do curso? Sim, ele dá ótimas oportunidades para o mercado de trabalho." Mas e o curso, você gosta? A pergunta martela mas logo se dissipa. Quando será a formatura?

Os exemplos poderiam ser intermináveis, mas paremos por aqui.

Pensando bem, olhar para o celular durante um jantar, pode também trazer um assunto interessante à mesa, uma balada pode ser uma experiência e tanto, uma faculdade de administração pode ser riquíssima em conhecimento, e não há maneira definida para se aproveitar uma viagem.

O que podemos discutir é onde estava o sentido do jantar à dois, da balada, da viagem, da promoção no emprego, nesses específicos contextos dos exemplos? Onde estavam os protagonistas das cenas? Pareciam não estar ali, pareciam estar em algum lugar que não o presente, e sem se dar conta desta abstração. Um estado de total alienação do desejo, que contribui para este sentimento de irrealidade, de não pertencimento, de uma vida sem sentido, uma vida que vai sendo levada sem propósito consciente. Aquela pergunta que vem como uma martelada, ou um sino que toca, é logo dissipada pelo barulhento mundo de fora e vai silenciando, até que se cala.

Mas não seria melhor mesmo cessar com este barulho interno? Pra que se questionar se está tudo bem? Por que tantos por quês? É uma pergunta bem legítima. Não há mesmo sentido em criar problemas aonde eles não existem. Os que estão ouvindo o barulho de martelo incomodo internamente podem tentar compreendê-lo, se quiserem.

Os conflitos, as dificuldades, não deixam de existir. Uma maior compreensão e consciência destas questões internas, porém, pode possibilitar uma movimentação pela vida mais livre, mais flexível, mais consciente, e assim sendo, o agora pode ser mais sentido, mais desfrutado.

Por essa perspectiva, a pergunta ”Você é feliz?” poderia ser seguida por uma outra: “O quanto você pode estar inteiro no agora?”.

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Por onde anda a criança que já morou em mim?

“Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita”. Uma linda música composta e interpretada por Gonzaguinha.

Muito comum os que interpretam a pureza da criança como uma pobre inocência. Quem tem ou teve o prazer de conviver com crianças sabe o quanto podem ser surpreendentes as respostas das crianças. Geralmente são simples e diretas, de uma inocência nada pobre, pelo contrário, uma rica inocência.

O adulto tende a ser convicto, a criança prefere deixar espaço para a dúvida. A famosa fase dos porquês, em que a criança está ávida por descobrir e construir seu mundo, muitas vezes é um momento temido pelo adulto. Frequentemente o adulto acredita em uma e somente sua verdade, a criança acredita em todas elas, contos de fadas e fantasias podem ganhar vida. Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, o País das maravilhas é logo ali. A criança gosta de colorir usando múltiplas cores, o adulto muitas vezes opta pelo preto no branco.

“É mais fácil do que roubar doce de criança!”, diria o inocente adulto.

“O que é roubar?”, perguntaria a pura criança.

Certa vez nessas andanças do cotidiano, uma cena me chamou a atenção. Estava na plataforma esperando o metrô, ao meu lado um menininho vivaz de uns 5 anos, ele contava com entusiasmo como tinha sido seu dia na escola para o adulto que o acompanhava, este mexia no celular e ouvia, mas parecia não escutar. Quando o barulho do trem se aproximou, o menininho gritou empolgado “O trem tá chegando, olha o trem, olha, olha, como é rápido, olha!”. E nada de resposta, o pobre adulto parecia não poder se surpreender com a chegada do trem. Provavelmente ele já vira o trem passar muitas vezes. A historia poderia se repetir. O trem passou. Torço para que esse garoto quando cresça possa ser um adulto capaz de olhar com esses mesmos olhos de uma criança que ainda tem curiosidade pelo trem que chega, se assim não for possível a vida pode ficar pesada para ele, cinzenta. Aí está a nada doce receita para que uma rica criança torne-se um empobrecido adulto, não por escolha, mas por defesa, por necessidade. O adulto que estava com ele não pode ser culpado, provavelmente foi vítima, roubaram o doce da criança.

É difícil preservar o doce da criança, desde cedo em muitas ocasiões a vida faz questão de derramar grandes pitadas amargas. Seja por um lar desestruturado, ou por um professor que já nos primeiros anos da escola estimula a competitividade e barra a criatividade, seja o adulto que conta logo cedo para criança que o Papai Noel não existe. Em casos mais graves, de falhas básicas do ambiente, pode até acontecer de a criança nunca ter a chance de ser criança, pecado!

O grande desafio para os que puderam um dia ser criança acho que é reencontrar, e preservar a criança dentro de si. O que não é nada fácil pois em muitas situações o mundo cobra para que nos portemos como pobres adultos. Em uma entrevista de emprego, por exemplo, somos pressionados a fingir que já sabemos tudo, quando enfrentamos o desconhecido não podemos ter medo, não há espaço para errar. Talvez o grande erro seja o de tentar acertar o tempo todo. Fosse assim não seríamos humanos, e sim super-heróis, e para que seja possível acreditar em super-heróis inevitavelmente temos que recorrer à nossa criança interior. É ela que poderá nos acudir, só ela acredita em super-heróis, afinal.

Que o trem possa passar pela primeira vez durante várias vezes em nossas vidas. E se perdermos este que passa agora, que possa haver outro que passará depois, e que ele não seja cinza. O mundo não é colorido, nem leve, é a realidade nua e crua, mas as crianças são capazes de dar leveza e pincelar com cores, o desafio é encontra-las dentro de nós. Como é bom encontrar adultos curiosos, interessados, inocentes, puros, muitas vezes eles são confundidos por bobos ou tontos, doce ilusão, ou melhor, amarga ilusão.

Há um texto marcante do psicanalista Hungaro Sándor Ferenczi que se relaciona com este tema. Se chama “Confusão de línguas entre os adultos e a criança. (a linguagem da ternura e da paixão)”. Se tiver interesse na leitura, pode me mandar um email (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) que será um prazer encaminhar o arquivo em pdf, pode ser também que ache disponível online. Obrigado pela visita!

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A capacidade de estar só

Dizem que uma boa amizade é aquela em que duas pessoas podem estar juntas e em silêncio sem que haja nenhum constrangimento. Sem dúvidas isso não é possível do dia para a noite, é conquistado por meio de experiências compartilhadas e do crescente sentimento de confiança entre ambos. Daí o frequente constrangimento ao pegarmos o elevador com algum desconhecido, e tentarmos quebrar o silêncio. O velho assunto do clima muitas vezes vem em mente em uma tentativa desesperada de “quebrar o gelo": “Esfriou né?” “Esse tempo tá louco!”.

Partindo destes fatos corriqueiros me lembrei de um conceito importante introduzido pelo renomado psicanalista Inglês Donald Winnicott em sua obra, chamado por ele de “a capacidade de estar só”.

Capacidade, neste caso, pode ser entendido como uma conquista potencial. Significa que há uma tendência natural e inata de alcançarmos este estágio de desenvolvimento emocional (a possibilidade de estar só), mas embora haja essa potencialidade, ela nem sempre se materializa, nem sempre chegamos a tal nível de maturidade, há uma longa estrada para que seja possível se apropriar desta capacidade. Parece ser algo muito básico e trivial podermos ficar só, mas neste caso há uma complexidade bastante sutil no que Winnicott conceituou como a capacidade de estar só. É uma aquisição, e que só será possível se houver um ambiente suficientemente bom. Acho que seria importante neste ponto reforçar a palavra suficientemente. Para ser suficiente imagina-se que não precise de esforço, que seja natural.

Para a teoria de Winnicott (e que me parece fazer bastante sentido), um ambiente suficientemente bom nos primeiros anos de vida é o que fundamentará este desenvolvimento emocional potencialmente herdado.

Aqui vou fazer o uso de uma metáfora para tentar ilustrar mais claramente. Pense no cultivo de uma flor. A semente tem o potencial de florescer, mas para isso precisa de um ambiente suficientemente bom, com temperatura adequada, ph adequado, terra adequada, é necessário que se regue adequadamente, dentre outros cuidados. Se tudo correr bem ela se desenvolverá de um modo satisfatório e florescerá, naturalmente.

É como um bebê quando nasce, é preciso que se construa um ambiente adequado que o proteja, afinal nascemos em nível total de dependência. Neste cenário a presença materna é essencial para se adaptar às necessidades do bebê. Por materno me refiro não só a presença da mãe como pessoa real (ou nem necessariamente a mãe no caso de outro alguém desempenhar esta função), mas a todo o ambiente que é percebido pelo bebê como algo fusionado com ele mesmo, sem haver nesta fase inicial uma percepção ou diferenciação do que é “eu” para o que é “não eu”. É preciso que haja um ambiente confiável para que o bebê construa seu mundo e passe a se desenvolver e amadurecer psiquicamente em seu tempo. Aqui o esforço da mãe pode ser nocivo na medida em que pode interromper ou ser percebido como intrusivo ao desenvolvimento natural do bebê. Voltando à metáfora da flor, um excesso de preocupação em regar a planta pode afoga-la e impedir seu florescer. Neste caso, é importante que haja uma ausência presente, ou uma liberdade cuidadosa, que favoreça o florescer e a capacidade de existir como um ser que se tornará capaz de brincar, de alucinar, de criar, de se relacionar com objetos, de estar só.

Pode soar estranho, mas uma presença atenta e despreocupada pode ser muito rica para o bebê. Importante aqui diferenciar despreocupação de descuido. Despreocupação aqui se refere mais a uma presença não ansiosa, relaxada e espontânea, mas com devoção e capacidade de se identificar e se adaptar às necessidades do bebê, o que não pode ser confundido com a ideia de que há um modelo pronto para que tudo vá bem, longe disso, aliás.

Levando em conta toda a complexidade desta ideia de desenvolvimento nestes processos iniciais da vida, conforme o psiquismo vai ficando mais maduro e o bebê vai podendo sair do estágio de dependência absoluta, conquista-se a capacidade de estar só, de acessar esta mãe suficientemente boa e este ambiente suficientemente bom, desta vez internamente. Um estar só na presença de alguém, uma presença tranquilizadora, e que não necessariamente implicará a presença de uma pessoa real em todos os momentos.

Se alguém tiver interesse em se aprofundar mais no tema, recomendo a leitura do livro "O ambiente e os processos de maturação", de D. W. Winnicott. Outra boa pedida seria um documentário que está disponível no Netflix, se chama "O começo da vida".

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Saudade

Saudade, aperto no peito, boas lembranças que foram vividas e nunca mais voltarão, ao menos não daquele mesmo jeito. Aquela linda fase em que havia a sensação de que éramos plenos e nem nos dávamos conta.

Aquela turma boa, aquela pessoa querida que se foi, aquele quintal, aquele bicho de estimação, o amigo. A distância, a ocasião, os caminhos misteriosos da vida que nos separaram. A vida parece em alguns momentos ser cruel, e não fosse tal crueldade pode ser que não fosse também tão bela.

As lembranças são boas, e talvez sejam assim tão boas por serem apenas lembranças, não podemos agarrá-las. Elas ficam guardadas em um canto bem íntimo e protegido. Ali elas são especiais, intocáveis, insubstituíveis. Que saudade que não cabe no peito! Lembranças que não serão jamais revividas, pois se revividas fossem, perderiam o status de especiais, intocáveis e insubstituíveis. Elas nos fortalecem, mas nos fragilizam também. Ao acessá-las, neste plano íntimo e protegido, é como se pudéssemos reviver o momento, ouvir o timbre de uma voz querida, mergulhar em um tempo e espaço que foi aquela fração de momento naquele específico local.

O riso facilmente pode virar lágrima ao revisitar um desses momentos carregados de cheiro, de gosto, de vida. Lágrimas escorrem, e quando tocam nossa boca nem mesmo sabemos dizer se são doces, amargas ou salgadas. Rimos ou choramos, afinal?

Saudade, palavra que não dá conta de expressar o afeto que traz em si. Em outras línguas não consegue-se nem mesmo uma tradução satisfatória. Saudade! Palavra bonita, triste, alegre? Palavra forte!

Por onde andam pessoas tão especiais que participaram de capítulos importantes no livro de minha vida? Muitas ainda estão presentes, mas de uma forma diferente, os capítulos mudam, os personagens também! Algumas não estão mais, mas o bonito é que mesmo sem estar ainda estão. As vezes é aquele alguém que passou rápido mesmo, mas deixou uma marca, foi possível ter uma experiência verdadeira, e as ocasiões da vida levaram cada um para um lado. Separados e juntos, não se pode medir, não se pode quantificar, só se sabe que fez parte de seu livro, mesmo que seja por uma única linha. Tire uma linha de um livro, e ele jamais será o mesmo.

E o engraçado é que nesses tempos de facilidade tecnológica, percebi que havia vários amigos de infância no bolso, um toque pelo Whatsapp seria capaz de matar essa saudade. Mas será que mata mesmo? O aplicativo não tem cor, não tem timbre, não tem cheiro. Embora o grupo esteja reunido ali naquele aplicativo capaz de aproximar as pessoas, a sensação é paradoxalmente de distanciamento. A sensação é de que nunca mais será a mesma coisa, um vazio, era bom quando não era virtual!

Os encontros da turma de ontem ficam esquisitos com o passar dos anos, não mais espontâneos como eram. É como se os personagens de ontem tentassem dançar hoje a música de ontem, mas de lá para cá cada um passou por diversos capítulos em seus singulares livros. Hoje eles não são mais a versão de ontem, não adianta forçar, e podem sim ser belos na versão de hoje. Somos a cada dia essa nossa nova versão de nós mesmos hoje, construída a partir de toda experiência vivida do ontem e de todos os dias anteriores.

Passado que dá saudade, futuro que dá frio na barriga. Personagens que duram um livro todo, personagens que vão e vem. Não sabemos quantas páginas ainda temos por escrever. Algumas vezes sinto que é bom revisitar as páginas já escritas, agradecer ao elenco que as compôs (e assim naturalmente me compôs). Sigo escrevendo as páginas em branco que virão, sem certezas, com saudades, pronto a me surpreender com os novos encontros e desencontros desta trama em que há espaço para drama, comédia, suspense, romance ou ação. São todos os gêneros em uma única obra, não fosse assim a vida seria fácil, e se fosse fácil não seria o que é.

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