Tons carnavalescos: o acesso ao lúdico

Topa embarcar em uma viagem fantasiosa?

Imaginemos dois personagens.

O primeiro se chama Folião, sujeito engraçado, brincalhão, de sorriso fácil, expressivo, parece ter uma mola no corpo, veste sempre roupas coloridas, amante fervoroso de confete e serpentina.

O segundo é o Sr. Caxias, sujeito rígido, cintura dura, apreciador dos bons valores, cumpridor de suas tarefas, não gosta de sair da rotina, odeia o carnaval. Se pudesse entrar no freezer, ir à Islândia, ou ficar em coma para despertar só depois da quarta feira de cinzas, ele o faria sem hesitar.

Possivelmente já topamos com a representação desses dois personagens em nossas vidas, sejam eles expressos em nossos amigos ou parentes, ou mesmo como figuras de nosso mundo interno.

Se houvesse  uma entrevista de emprego hoje, qual desses personagens lhe vestiria melhor? E para ir desfilar em um bloco de carnaval? Prove imaginá-los. Como eles estão vestidos em sua imaginação?

O carnaval nos convida para uma grande brincadeira, onde homem pode se vestir de mulher e vice-versa. Os tabus são (temporariamente) suspensos pelo viés do humor. O imperativo desta festividade é se expressar sem medo, voltar a ser criança, se livrar da vergonha e deixar a autenticidade em primeiro plano. Abre-se uma janela para o encontro com a fantasia, com a criatividade, com o lúdico, com a espontaneidade.

Winnicott (pediatra e psicanalista Inglês), em sua teoria, abordou muito a questão do brincar como sendo uma capacidade emocional, um estágio psíquico elaborado, um indicativo de saúde mental.  Por esta perspectiva, poder encontrar o seu Folião interno tem grande valor, e nem sempre há a possibilidade deste encontro. Todos nascemos com uma potencialidade para o brincar, mas para desabrochar o jogo da fantasia, é preciso que haja um ambiente capaz de prover cuidados.

Rir de si mesmo, fantasiar, existir espontaneamente, acessar tons de cores variados e poder circular por esses tons de modo mais flexível, não é, portanto, trivial. Encontrar seu Folião é ter recurso psíquico, acesso ao privilegiado espaço do brincar.

Pensar na capacidade do brincar e do criar como espaço fundamental para que haja saúde psíquica parece contraditório, em uma cultura que privilegia a objetividade em detrimento da subjetividade. Fazer, ter boa performance, cumprir metas, competir, são demandas permanentes em nosso cotidiano. Interessante observar que a cada ano o pré carnaval começa mais cedo e o pós carnaval termina mais tarde, sem contar os carnavais fora de época espalhados pelo Brasil.

Será que está faltando carnaval em nossas vidas?

No jogo carnavalesco há uma regra implícita. Assim que a música acabar e o bloco passar pela avenida, saia pela área de dispersão, tire sua fantasia de Folião, e dê espaço para que o Sr. Caxias volte do coma para assumir o controle. Não deixe que eles se encontrem. Imagine que absurdo seria caso Folião se fantasiasse de Sr. Caxias ou Sr. Caxias se fantasiasse de Folião. Seria uma subversão das regras do jogo.

Sabe aquela frase que muitos usam no natal? “Que o espírito natalino possa estar presente em todo o ano, e não só no natal.” Seria loucura replicá-la para o carnaval? Que o espírito carnavalesco possa estar mais presente durante todo o ano. Leia-se aqui “espírito carnavalesco”, como aceitação das diferenças, expressão cultural, espaço lúdico, que nos permite acessar o nosso Folião criativo e espontâneo sem ter que mandar o pobre Sr. Caxias à Islândia. Esse é o carnaval que todo Folião quer viver com alegria.

Existe também o avesso desse carnaval romântico. Brigas, comas alcoólicos, arrastões, abusos sexuais, furtos. Esse é o carnaval que o Sr. Caxias não suporta. E a velha e recorrente frase: “Ah, mas é carnaval! (vale tudo)”. Tal afirmação é conivente com a violência, não reconhece a vítima e a comprime em um pacto perverso que mata qualquer possibilidade de Folião aparecer para brincar.

A escassez de espaços carnavalescos durante todo o ano estaria relacionada ao surgimento desse carnaval maníaco e sem lei, onde violência e confete podem proporcionar um trágico encontro? A falta no dia a dia de espaços criativos onde o brincar é estimulado, seria uma das possíveis razões para que se viva o feriado de carnaval como se o mundo fosse acabar amanhã? Quando o apocalipse é anunciado, a barbárie naturalmente entra em cena, afinal, ninguém samba quando está indo em direção ao precipício.

Mais carnaval (lúdico) e menos carnaval (maníaco), seria possível? Sr. Caxias e Folião cantarolando na mesma avenida, uma utopia que só o carnaval permite imaginar, pelo menos até que venha a ressaca da quarta feira de cinzas, e nos faça acordar de um belo sonho com marchinhas, serpentinas, confetes e alegria.

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