A idealização da família margarina

Você já deve ter visto um comercial de margarina. Dia ensolarado, pessoas bonitas reunidas, mãe, pai, avós, netos, cachorros, arco-íris. As propagandas estão cada vez mais criativas, logo é capaz de aparecer um unicórnio no cenário que define o mais puro estado de felicidade.

O quanto este modelo de família ideal nos afeta?

Do ponto de vista de nosso psiquismo, a família representaria o cuidado inicial de que precisamos para viver. Cuidados físicos, afeto, as primeiras experiências e sensações de ser estão intimamente ligadas à relação com nossos primeiros cuidadores. O bebê quando nasce é pura sensação, e depende de um ambiente que o acolha e atenda suas necessidades para que pouco a pouco possa se constituir, se integrar. Aos poucos as pessoas podem ser sentidas como diferentes do bebê, o fora e o dentro, o "eu" e o "não eu", passam a ser reconhecidos. As pessoas reais e as experiências com elas passam então a ser referências fundamentais para que haja a possibilidade de identificações.

Os membros da família (ou primeiros cuidadores), em seu relacionamento com o bebê, são de fundamental importância nesta constituição do ser. O bebê precisa de olhar, de contato, de cuidado, de afeto. Ao contrário de outros animais, nós humanos precisamos dessa ligação como outro. Somente a partir da relação com o outro é que podemos existir e ser individualmente. Basta imaginar a cena de um parto, o que seria do bebê não fosse a presença de outros que possam acolhê-lo em sua chegada?

E não é sempre que essas primeiras relações são favoráveis. Não quero passar a impressão de que exista o jeito adequado e específico de relacionamento inicial saudável, mas que os primeiros cuidados são bastante importantes para nosso desenvolvimento, isso já pode ser comprovado por estudos e observações. Presença de outros com afeto pela criança, do jeito que for, da maneira possível, mas presentes. A não ausência é importante, e quanto menos ansiosa e aflitiva ela for, melhor. Existiria a perfeição? Existiria a família perfeita margarina? Existiria o unicórnio? Acho que até existem sim, mas em nossas fantasias, de forma idealizada.

Idealizações que ganham vida pela via do cultural. Questões bem anteriores ao nosso nascimento. A família margarina está enraizada nos pilares da Igreja Católica e outras religiões. A família como representação da preservação de uma tradição, o sobrenome e linhagem como uma perpetuação do poder, a família como legado e marca daqueles que já se foram, muitas vezes a família passa a ser uma carga bem pesada a ser carregada. Parece até que isso tudo é papo de séculos e séculos passados, mas mesmo suas origens habitando tempos tão distantes, tal ideal de família ainda está muito vivo e presente em nosso dia a dia, direta ou indiretamente. No caso das propagandas atuais de margarina, o apelo é para o consumo, afinal as famílias margarinas compram, movimentam indústrias, são grandes mercados alvos.

Mas como é a família margarina hoje? Ela está ganhando várias formas diferentes se comparada à imagem polêmica e rígida da tradicional família Brasileira. Adoções, casais homossexuais, mães ou pais solteiros, padrastos, madrastas, são as legítimas famílias de hoje. Aos poucos a imagem da família tradicional vai mudando, mas creio ser ingenuidade acreditar que suas raízes foram extintas. São marcas profundas de séculos e séculos de existência. Por mais que hoje o discurso atual seja de liberdade e flexibilidade, a imagem da família margarina estática e como modelo ainda é bem presente e atuante na cultura e consequentemente em nosso psiquismo ou vice versa.

A cultura está intimamente ligada ao nosso desenvolvimento psíquico, não se pode traçar uma linha que separa o que é o mundo de fora com o que é o nosso mundo interno, ambos estão mutuamente e constantemente em relações recíprocas. E esses ideais estão enraizados em nosso imaginário, em nossas relações, e muitas vezes é bastante sofrido viver em uma família real, com problemas reais, e ao mesmo tempo ter de sustentar a ilusão da tradição e da idealização desse modelo margarina vendida nos comerciais.

Cada um lida como pode. Alguns se preocupam em manter a embalagem perfeita, pouco se importam com o conteúdo do produto (mesmo sabendo que por dentro está estragado). Outros vivem e acreditam na qualidade da embalagem e da margarina que tem dentro, esses são os reféns da idealização, mas que se sustentam nela, nem acho que seja uma questão de escolha, mas a idealização pode ser analisada como uma sustentação, um apoio, uma base sem a qual não é possível existir, portanto, uma defesa que tem sentido de estar ali. Há também os que passam a perceber que a margarina não é perfeita, é o que é, e procuram desfrutar de seu sabor como possível for, sem carregar o peso de sustentar uma embalagem bem produzida. Cada um faz o que dá, enxergar ou não o unicórnio nem sempre é questão de opção. Aguardemos os próximos comerciais de margarina, desfrutemos do que for possível em nossas famílias, sejam elas famílias de origem, de sangue, ou mesmo famílias genuínas formadas pelos encontros da vida.

Deixe um comentário

Make sure you enter all the required information, indicated by an asterisk (*). HTML code is not allowed.