A impossibilidade de habitar o agora

Uma queixa frequente da atualidade é a impossibilidade de estar no presente. O corpo físico está aqui e agora, mas há uma sensação de irrealidade, não pertencimento, falta de sentido.

Para facilitar o entendimento do que estou querendo expor, não faltam situações cotidianas como exemplo:

Jantar. A habitual cena do casal em um restaurante, cada um em seu celular. Corpos presentes, mas perde-se o prazer de saborear o alimento, curtir o ambiente, desfrutar da companhia um do outro, e assim dar sentido à experiência de estar ali, naquele instante.

Balada. Despertar no dia seguinte de ressaca, não se lembrar da música, da dança, das conversas, das risadas, mas valeu. Valeu mesmo? Ao acordar a pergunta martela junto à dor de cabeça. Seria insuportável encarar o fato de que não valeu! Quando será a próxima?

Viagem de férias. É preciso conhecer todos os pontos turísticos indicados pelo guia comprado na livraria. "Mas olha que belo parque, que tal parar um pouco para descansar e aproveitar este belo entardecer? Não pode, não vai dar tempo, o museu vai fechar. Museu do que? Não importa, se está no guia é bom!" Na volta vem a clássica pergunta. "A viagem foi boa? Foi ótima, todos os pontos turísticos foram visitados com sucesso!" Foi ótima mesmo? A pergunta que martela internamente, mas melhor não ouvi-la, quando será a próxima viagem?

Trabalho. Promoção. "Parabéns, vamos comemorar, está feliz? Claro, vou ganhar mais, o duro é que agora vou ter que ficar no escritório sem hora definida para sair, pode ser que eu fique sumido por um tempo." Está feliz mesmo? A pergunta martela, mas subitamente se esvai do pensamento. Quem não estaria feliz? Quando será a próxima promoção?

Vestibular. "Passei na melhor faculdade de administração! Que bom, estou muito contente por você, gosta do curso? Sim, ele dá ótimas oportunidades para o mercado de trabalho." Mas e o curso, você gosta? A pergunta martela mas logo se dissipa. Quando será a formatura?

Os exemplos poderiam ser intermináveis, mas paremos por aqui.

Pensando bem, olhar para o celular durante um jantar, pode também trazer um assunto interessante à mesa, uma balada pode ser uma experiência e tanto, uma faculdade de administração pode ser riquíssima em conhecimento, e não há maneira definida para se aproveitar uma viagem.

O que podemos discutir é onde estava o sentido do jantar à dois, da balada, da viagem, da promoção no emprego, nesses específicos contextos dos exemplos? Onde estavam os protagonistas das cenas? Pareciam não estar ali, pareciam estar em algum lugar que não o presente, e sem se dar conta desta abstração. Um estado de total alienação do desejo, que contribui para este sentimento de irrealidade, de não pertencimento, de uma vida sem sentido, uma vida que vai sendo levada sem propósito consciente. Aquela pergunta que vem como uma martelada, ou um sino que toca, é logo dissipada pelo barulhento mundo de fora e vai silenciando, até que se cala.

Mas não seria melhor mesmo cessar com este barulho interno? Pra que se questionar se está tudo bem? Por que tantos por quês? É uma pergunta bem legítima. Não há mesmo sentido em criar problemas aonde eles não existem. Os que estão ouvindo o barulho de martelo incomodo internamente podem tentar compreendê-lo, se quiserem.

Os conflitos, as dificuldades, não deixam de existir. Uma maior compreensão e consciência destas questões internas, porém, pode possibilitar uma movimentação pela vida mais livre, mais flexível, mais consciente, e assim sendo, o agora pode ser mais sentido, mais desfrutado.

Por essa perspectiva, a pergunta ”Você é feliz?” poderia ser seguida por uma outra: “O quanto você pode estar inteiro no agora?”.

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