Por onde anda a criança que já morou em mim?

“Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita”. Uma linda música composta e interpretada por Gonzaguinha.

Muito comum os que interpretam a pureza da criança como uma pobre inocência. Quem tem ou teve o prazer de conviver com crianças sabe o quanto podem ser surpreendentes as respostas das crianças. Geralmente são simples e diretas, de uma inocência nada pobre, pelo contrário, uma rica inocência.

O adulto tende a ser convicto, a criança prefere deixar espaço para a dúvida. A famosa fase dos porquês, em que a criança está ávida por descobrir e construir seu mundo, muitas vezes é um momento temido pelo adulto. Frequentemente o adulto acredita em uma e somente sua verdade, a criança acredita em todas elas, contos de fadas e fantasias podem ganhar vida. Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, o País das maravilhas é logo ali. A criança gosta de colorir usando múltiplas cores, o adulto muitas vezes opta pelo preto no branco.

“É mais fácil do que roubar doce de criança!”, diria o inocente adulto.

“O que é roubar?”, perguntaria a pura criança.

Certa vez nessas andanças do cotidiano, uma cena me chamou a atenção. Estava na plataforma esperando o metrô, ao meu lado um menininho vivaz de uns 5 anos, ele contava com entusiasmo como tinha sido seu dia na escola para o adulto que o acompanhava, este mexia no celular e ouvia, mas parecia não escutar. Quando o barulho do trem se aproximou, o menininho gritou empolgado “O trem tá chegando, olha o trem, olha, olha, como é rápido, olha!”. E nada de resposta, o pobre adulto parecia não poder se surpreender com a chegada do trem. Provavelmente ele já vira o trem passar muitas vezes. A historia poderia se repetir. O trem passou. Torço para que esse garoto quando cresça possa ser um adulto capaz de olhar com esses mesmos olhos de uma criança que ainda tem curiosidade pelo trem que chega, se assim não for possível a vida pode ficar pesada para ele, cinzenta. Aí está a nada doce receita para que uma rica criança torne-se um empobrecido adulto, não por escolha, mas por defesa, por necessidade. O adulto que estava com ele não pode ser culpado, provavelmente foi vítima, roubaram o doce da criança.

É difícil preservar o doce da criança, desde cedo em muitas ocasiões a vida faz questão de derramar grandes pitadas amargas. Seja por um lar desestruturado, ou por um professor que já nos primeiros anos da escola estimula a competitividade e barra a criatividade, seja o adulto que conta logo cedo para criança que o Papai Noel não existe. Em casos mais graves, de falhas básicas do ambiente, pode até acontecer de a criança nunca ter a chance de ser criança, pecado!

O grande desafio para os que puderam um dia ser criança acho que é reencontrar, e preservar a criança dentro de si. O que não é nada fácil pois em muitas situações o mundo cobra para que nos portemos como pobres adultos. Em uma entrevista de emprego, por exemplo, somos pressionados a fingir que já sabemos tudo, quando enfrentamos o desconhecido não podemos ter medo, não há espaço para errar. Talvez o grande erro seja o de tentar acertar o tempo todo. Fosse assim não seríamos humanos, e sim super-heróis, e para que seja possível acreditar em super-heróis inevitavelmente temos que recorrer à nossa criança interior. É ela que poderá nos acudir, só ela acredita em super-heróis, afinal.

Que o trem possa passar pela primeira vez durante várias vezes em nossas vidas. E se perdermos este que passa agora, que possa haver outro que passará depois, e que ele não seja cinza. O mundo não é colorido, nem leve, é a realidade nua e crua, mas as crianças são capazes de dar leveza e pincelar com cores, o desafio é encontra-las dentro de nós. Como é bom encontrar adultos curiosos, interessados, inocentes, puros, muitas vezes eles são confundidos por bobos ou tontos, doce ilusão, ou melhor, amarga ilusão.

Há um texto marcante do psicanalista Hungaro Sándor Ferenczi que se relaciona com este tema. Se chama “Confusão de línguas entre os adultos e a criança. (a linguagem da ternura e da paixão)”. Se tiver interesse na leitura, pode me mandar um email (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) que será um prazer encaminhar o arquivo em pdf, pode ser também que ache disponível online. Obrigado pela visita!

3 comentários

  • Lenira
    Lenira, 12 Junho, 2016 10:06 Link do comentário

    Delicia de texto. Que bom ter um olhar reflexivo sobre nossa cidade. Obrigado! Quero mais! Um abraço Lenira

  • davi martins cavaco
    davi martins cavaco 11 Junho, 2016 09:06 Link do comentário

    parabéns Andre...textos lindos...

  • Didia
    Didia, 9 Junho, 2016 09:06 Link do comentário

    Como sempre, seus textos me encantam... E não é pq vc é um dos meus amados sobrinhos, é pq seus textos são mesmo maravilhosos! Eles, escritos sob o comando de seu doce coração, são bálsamo em nossas almas... Obrigada, André querido! Que aquela criança amada e feliz que cresceu em seu ser, esteja hoje e sempre no comando colorido de sua caminhada! Não permita que o cinza chumbo da realidade contaminem toda essa beleza e vivacidade que guardas em seu interior!

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