A capacidade de estar só

  • Escrito por  Andre Girola
  • Publicado em Artigos e textos
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Dizem que uma boa amizade é aquela em que duas pessoas podem estar juntas e em silêncio sem que haja nenhum constrangimento. Sem dúvidas isso não é possível do dia para a noite, é conquistado por meio de experiências compartilhadas e do crescente sentimento de confiança entre ambos. Daí o frequente constrangimento ao pegarmos o elevador com algum desconhecido, e tentarmos quebrar o silêncio. O velho assunto do clima muitas vezes vem em mente em uma tentativa desesperada de “quebrar o gelo": “Esfriou né?” “Esse tempo tá louco!”.

Partindo destes fatos corriqueiros me lembrei de um conceito importante introduzido pelo renomado psicanalista Inglês Donald Winnicott em sua obra, chamado por ele de “a capacidade de estar só”.

Capacidade, neste caso, pode ser entendido como uma conquista potencial. Significa que há uma tendência natural e inata de alcançarmos este estágio de desenvolvimento emocional (a possibilidade de estar só), mas embora haja essa potencialidade, ela nem sempre se materializa, nem sempre chegamos a tal nível de maturidade, há uma longa estrada para que seja possível se apropriar desta capacidade. Parece ser algo muito básico e trivial podermos ficar só, mas neste caso há uma complexidade bastante sutil no que Winnicott conceituou como a capacidade de estar só. É uma aquisição, e que só será possível se houver um ambiente suficientemente bom. Acho que seria importante neste ponto reforçar a palavra suficientemente. Para ser suficiente imagina-se que não precise de esforço, que seja natural.

Para a teoria de Winnicott (e que me parece fazer bastante sentido), um ambiente suficientemente bom nos primeiros anos de vida é o que fundamentará este desenvolvimento emocional potencialmente herdado.

Aqui vou fazer o uso de uma metáfora para tentar ilustrar mais claramente. Pense no cultivo de uma flor. A semente tem o potencial de florescer, mas para isso precisa de um ambiente suficientemente bom, com temperatura adequada, ph adequado, terra adequada, é necessário que se regue adequadamente, dentre outros cuidados. Se tudo correr bem ela se desenvolverá de um modo satisfatório e florescerá, naturalmente.

É como um bebê quando nasce, é preciso que se construa um ambiente adequado que o proteja, afinal nascemos em nível total de dependência. Neste cenário a presença materna é essencial para se adaptar às necessidades do bebê. Por materno me refiro não só a presença da mãe como pessoa real (ou nem necessariamente a mãe no caso de outro alguém desempenhar esta função), mas a todo o ambiente que é percebido pelo bebê como algo fusionado com ele mesmo, sem haver nesta fase inicial uma percepção ou diferenciação do que é “eu” para o que é “não eu”. É preciso que haja um ambiente confiável para que o bebê construa seu mundo e passe a se desenvolver e amadurecer psiquicamente em seu tempo. Aqui o esforço da mãe pode ser nocivo na medida em que pode interromper ou ser percebido como intrusivo ao desenvolvimento natural do bebê. Voltando à metáfora da flor, um excesso de preocupação em regar a planta pode afoga-la e impedir seu florescer. Neste caso, é importante que haja uma ausência presente, ou uma liberdade cuidadosa, que favoreça o florescer e a capacidade de existir como um ser que se tornará capaz de brincar, de alucinar, de criar, de se relacionar com objetos, de estar só.

Pode soar estranho, mas uma presença atenta e despreocupada pode ser muito rica para o bebê. Importante aqui diferenciar despreocupação de descuido. Despreocupação aqui se refere mais a uma presença não ansiosa, relaxada e espontânea, mas com devoção e capacidade de se identificar e se adaptar às necessidades do bebê, o que não pode ser confundido com a ideia de que há um modelo pronto para que tudo vá bem, longe disso, aliás.

Levando em conta toda a complexidade desta ideia de desenvolvimento nestes processos iniciais da vida, conforme o psiquismo vai ficando mais maduro e o bebê vai podendo sair do estágio de dependência absoluta, conquista-se a capacidade de estar só, de acessar esta mãe suficientemente boa e este ambiente suficientemente bom, desta vez internamente. Um estar só na presença de alguém, uma presença tranquilizadora, e que não necessariamente implicará a presença de uma pessoa real em todos os momentos.

Se alguém tiver interesse em se aprofundar mais no tema, recomendo a leitura do livro "O ambiente e os processos de maturação", de D. W. Winnicott. Outra boa pedida seria um documentário que está disponível no Netflix, se chama "O começo da vida".

3 comentários

  • Sandra
    Sandra, 7 Junho, 2016 01:06 Link do comentário

    Muito bom o seu texto. E obrigada pela dica do documentário !

  • Maigon Pontuschka
    Maigon Pontuschka, 6 Junho, 2016 09:06 Link do comentário

    Muito interessante o artigo sobre a capacidade de estar só. Me faz querer estudar Winnicott. Aliás, belíssima a foto escolhida para ilustrar o artigo.

  • Davi  cavaco
    Davi cavaco 1 Junho, 2016 02:06 Link do comentário

    Cada dia vc escreve e se expressa melhor Girola. ..adorei por vc utilizar metáfora. ..e para mim é a forma mais perfeita de comunicação escrita pois assim podemos vestir as carapuças ....e eu como pai de 4 adolescentes / adultos vesti muito bem a explicação. ..e concordo...temos que estar presente sem se fazer perceber que estamos lá para o que der e vier. .. parabéns mais uma vez....

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