Saudade

Saudade, aperto no peito, boas lembranças que foram vividas e nunca mais voltarão, ao menos não daquele mesmo jeito. Aquela linda fase em que havia a sensação de que éramos plenos e nem nos dávamos conta.

Aquela turma boa, aquela pessoa querida que se foi, aquele quintal, aquele bicho de estimação, o amigo. A distância, a ocasião, os caminhos misteriosos da vida que nos separaram. A vida parece em alguns momentos ser cruel, e não fosse tal crueldade pode ser que não fosse também tão bela.

As lembranças são boas, e talvez sejam assim tão boas por serem apenas lembranças, não podemos agarrá-las. Elas ficam guardadas em um canto bem íntimo e protegido. Ali elas são especiais, intocáveis, insubstituíveis. Que saudade que não cabe no peito! Lembranças que não serão jamais revividas, pois se revividas fossem, perderiam o status de especiais, intocáveis e insubstituíveis. Elas nos fortalecem, mas nos fragilizam também. Ao acessá-las, neste plano íntimo e protegido, é como se pudéssemos reviver o momento, ouvir o timbre de uma voz querida, mergulhar em um tempo e espaço que foi aquela fração de momento naquele específico local.

O riso facilmente pode virar lágrima ao revisitar um desses momentos carregados de cheiro, de gosto, de vida. Lágrimas escorrem, e quando tocam nossa boca nem mesmo sabemos dizer se são doces, amargas ou salgadas. Rimos ou choramos, afinal?

Saudade, palavra que não dá conta de expressar o afeto que traz em si. Em outras línguas não consegue-se nem mesmo uma tradução satisfatória. Saudade! Palavra bonita, triste, alegre? Palavra forte!

Por onde andam pessoas tão especiais que participaram de capítulos importantes no livro de minha vida? Muitas ainda estão presentes, mas de uma forma diferente, os capítulos mudam, os personagens também! Algumas não estão mais, mas o bonito é que mesmo sem estar ainda estão. As vezes é aquele alguém que passou rápido mesmo, mas deixou uma marca, foi possível ter uma experiência verdadeira, e as ocasiões da vida levaram cada um para um lado. Separados e juntos, não se pode medir, não se pode quantificar, só se sabe que fez parte de seu livro, mesmo que seja por uma única linha. Tire uma linha de um livro, e ele jamais será o mesmo.

E o engraçado é que nesses tempos de facilidade tecnológica, percebi que havia vários amigos de infância no bolso, um toque pelo Whatsapp seria capaz de matar essa saudade. Mas será que mata mesmo? O aplicativo não tem cor, não tem timbre, não tem cheiro. Embora o grupo esteja reunido ali naquele aplicativo capaz de aproximar as pessoas, a sensação é paradoxalmente de distanciamento. A sensação é de que nunca mais será a mesma coisa, um vazio, era bom quando não era virtual!

Os encontros da turma de ontem ficam esquisitos com o passar dos anos, não mais espontâneos como eram. É como se os personagens de ontem tentassem dançar hoje a música de ontem, mas de lá para cá cada um passou por diversos capítulos em seus singulares livros. Hoje eles não são mais a versão de ontem, não adianta forçar, e podem sim ser belos na versão de hoje. Somos a cada dia essa nossa nova versão de nós mesmos hoje, construída a partir de toda experiência vivida do ontem e de todos os dias anteriores.

Passado que dá saudade, futuro que dá frio na barriga. Personagens que duram um livro todo, personagens que vão e vem. Não sabemos quantas páginas ainda temos por escrever. Algumas vezes sinto que é bom revisitar as páginas já escritas, agradecer ao elenco que as compôs (e assim naturalmente me compôs). Sigo escrevendo as páginas em branco que virão, sem certezas, com saudades, pronto a me surpreender com os novos encontros e desencontros desta trama em que há espaço para drama, comédia, suspense, romance ou ação. São todos os gêneros em uma única obra, não fosse assim a vida seria fácil, e se fosse fácil não seria o que é.

1 Comentário

  • Lídia
    Lídia, 16 Maio, 2016 09:05 Link do comentário

    Seu texto deixou meus olhos marejados... Saudades boas, sempre..

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