The overview effect – O planeta visto de fora

Muitos dizem que estudar Astronomia pode ser uma experiência transformadora. Tive a oportunidade de assistir algumas aulas na época em que fiz faculdade (não tinha relação com a graduação que fiz, mas era possível se inscrever em qualquer disciplina de outros cursos, e por algum motivo a Astronomia me atraiu).

A princípio imaginava que seria uma matéria simples, estudaríamos o sistema solar, as constelações e as galáxias. As duas primeiras aulas foram assim, mas a partir de então foi ficando cada vez mais complexo, física e matemática, fórmulas e mais fórmulas, daquelas que misturam várias letras com números, não era bem o que eu esperava.

Ficou difícil de acompanhar e pouco absorvi desta parte mais refinada da teoria, mas passados anos desta experiência, percebo o quanto ela me marcou. Naquelas aulas entrei em contato com algo que sempre soube, mas estranhamente parecia ter o impacto de uma grande novidade: nosso planeta é um pequeniníssimo grão de areia em meio a um universo infinitamente grande e desconhecido.

Esquisita foi a sensação de descobrir uma informação que já estava registrada em mim. Como se revela algo que já sabemos que existe? Talvez, embora o fato estivesse ali claro e presente, parece que até então não o havia acessado. Registrado sim, porém ainda não acessado. Até então não tinha mergulhado nas implicações desta afirmativa: o Planeta em que vivo não é nada comparado à imensidão do desconhecido. Tudo o que conheço, os limites do meu mundo, não são nada perto do imenso e misterioso universo. Pensar nisso chega até a ser um exercício de humildade.

E o impacto de se ver vulnerável ao mesmo tempo que assusta, fascina. É um pouco do que relatam também os astronautas que tiveram o privilégio de poder enxergar o belo e azul Planeta Terra do espaço. No fim deste texto está o link do vídeo com os depoimentos, é nítido como de fato foi uma experiência bastante intensa e transformadora para todos eles, ao assistir parece que de algum modo podemos ter uma noção do que eles sentiram ao ver o mundo que até então conheciam como sendo o todo virar uma ínfima parte representado por um ponto azul perdido no espaço. É o que ficou conhecido como “The Overview Effect”.

Ao assistir o vídeo, me fez pensar um pouco na Psicanálise. Em um processo de análise, pode-se acessar uma área que está marcada por registros que sempre estiveram presentes e atuantes, mas que por vezes não foram revelados. Apesar de sabermos da existência do Universo do inconsciente, vivemos em nosso Planeta Terra da consciência. E não poderia ser diferente, afinal é na Terra que temos oxigênio, água e todas as condições que permitam nossa adaptação.

Sabemos da existência do inconsciente e de seus registros, mas nem por isso podemos quebrar a barreira da consciência para acessá-los. É como se a análise possibilitasse o entrar em contato com algo que já estava lá, mas isso não significa se jogar no espaço. É refletir sobre o fato de que o universo existe, e que somos sujeitos pequenos, sujeitos faltantes, que não somos onipotentes, que temos nossas limitações, feridas, cada um em uma área de seu próprio planeta, a depender de cada história.

História que é singular, parte de um todo maior do qual não temos controle, mas que podemos ter a consciência de que existe. E entrar em contato com esta complexidade, nos faz ter uma experiência de humildade, parecido com a experiência do overview effect.

Desta vez, porém, somos nós olhando para nós mesmos, visto de fora, sem as fronteiras demarcadas pelos mapas de geografia. Exposto, regido por um funcionamento próprio, cada qual com sua gravidade diferente. Cai a onipotência, e estranhamente nos sentimos mais fortes ao reconhecer nossa fragilidade. É como se o processo de análise fosse mesmo uma experiência parecida ao do overview effect, com a visão de nosso próprio planeta visto de uma área fora da bolha em que estamos acostumados a morar.

Link do vídeo, caso se interessem por assistir:

https://www.youtube.com/watch?v=KB5y2NJ9oxQ&feature=youtu.be

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