Workaholic x Lifeaholic

A contagem regressiva para as férias tornou-se hábito comum para muitos, principalmente aos que vivem em uma rotina muito atarefada, em grandes metrópoles, com a já comum e habitual carga excessiva de trabalho. “Depois de tanto trabalho duro e esforço, lá vou eu viajar, curtir, extravasar, afinal também sou filho de Deus”.

O mesmo processo costumeiramente acontece para os finais de semana. Não é raro já na segunda feira o início da espera pelo tão sonhado e belo momento: sexta feira, final do expediente.

Tal condição nos leva a refletir. Seria esta uma brincadeira saudável e divertida que tornou-se usual, ou por trás dessa contagem regressiva há um latente pedido de socorro?

Vamos sobreviver aos dias úteis para poder viver efetivamente nos dias de lazer. Quais seriam então os dias úteis? Úteis para quem?

Pode haver aí um conflito, capaz de espremer, pressionar ou até mesmo aniquilar o sujeito. O princípio de realidade demanda que se trabalhe além das 8 horas estipuladas como convencionais. Caso não entregue resultado há o risco iminente de ser engolido pela competição feroz presente no mercado de trabalho. “Se não estou dando conta, algo deve estar errado em mim, se não consigo entregar o que me pedem alguém que está batendo na porta da empresa consegue, este sim está pronto para assumir o meu lugar e dar conta do recado.”

E quando acontecem as demissões (ou descarte), o motivo apontado raramente será daquele que está dando o pé na bunda (empresa), mas normalmente o problema apresentado é o da inaptidão, ou ineficiência do que está recebendo o chute. Imagine a possibilidade de um chefe dizer à seu funcionário: “Querido (a), o problema sou eu, é o meu sistema, esta empresa, você não merece isso, vá buscar algo melhor para sua saúde, está demitido”.

Humanos são cobrados para desempenharem como máquinas, quem nunca ouviu o clichê "Saiba separar o profissional do pessoal, quando pisar no escritório deixe seus problemas em casa". Se alguém achar o botão para virar a chave, por favor me avise onde fica!! Pensando bem, melhor não. Existem excessões, ainda bem! Mas infelizmente este é um duro cenário para muitos. São várias as tentativas de conciliação, ou o que podemos chamar de uma negociação entre o que é vivido internamente e o que é cobrado externamente. Há já muitos movimentos para tornar o espaço de trabalho mais amigável, afinal, como muitos dizem, "passa-se mais tempo no ambiente de trabalho do que com as pessoas mais valiosas de sua vida". Passa-se mais tempo com colegas do que com amigos. E como fazer um colega tornar-se amigo? Como trazer vida para o ambiente muitas vezes de sobrevivência que é criado em uma corporação? Como sentir-se real em um ambiente que demanda atuação a todo instante?

Acho que passar a chamar o funcionário de colaborador, e permitir que se use uma roupa mais confortável às sextas feiras (casual Friday) não são o bastante. Como o sistema parece incapaz de reconhecer os limites humanos, o sujeito tenta então fazer esta conciliação a seu modo. Alcoolismo, remédios psiquiátricos, comportamentos maníacos e onipotentes passam a ser a única possibilidade de existência em uma cultura que dá grande valor ao sujeito sem tempo, ocupado, importante, bem sucedido, porém despirocado, desequilibrado, psiquicamente aniquilado.

Reflexo disso são as propagandas de hoje, que instituíram o mantra “Seja lifeaholic”. Para suportar uma rotina “workaholic” é preciso mesmo ser “lifeaholic” no tempo livre, e é aí que o tempo livre deixa de ser livre e o lazer ganha também tom de obrigação. Aos finais de semana, aquele capaz de fazer o maior número de atividades ganha o troféu. Os “lifeaholics”, capazes de pular de paraquedas, fazer rafting, ir no chá de bebê da família, pegar uma balada, fazer um after balada e ainda publicar tudo isso em seu diário público das redes sociais é o retrato do sucesso exposto nos comerciais.

Pobre ”lifeaholic”, ele é uma vítima do ambiente em que está inserido. Esta foi a única forma com a qual foi possível existir no cenário caótico que se apresentou. A questão é que as demandas internas, em muitos desses casos, estão sendo suprimidas, gerando sintomas que são combatidos por remédios psiquiátricos, que de fato em muitos casos são úteis para estabelecer um equilíbrio na vida psíquica do sujeito. O problema aí é que este equilíbrio é imposto de fora para dentro, e não conquistado de dentro para fora, chega então a ser um equilíbrio artificial, um equilíbrio desequilibrado, que contribui para a criação de um exército de Walking Deads, produtivos, adaptados e bem sucedidos por fora, mortos por dentro.

Reflete a figura do sujeito bem sucedido retratado nos meios de comunicação, um “lifeaholic” que não se reconhece. Como não é possível sentir-se real nos chamados dias úteis, há uma necessidade de extravasar nos dias de lazer, e sendo assim em nenhum dos dois extremos há a possibilidade de SER, integrado, suficiente, e genuíno. E assim continua-se a fazer as contagens regressivas, mas não mais para as férias ou finais de semana, mas para quando o “sujeito bomba relógio” vai dar um CRACK, e virar mais um número para as exorbitantes estatísticas de doenças da modernidade: stress, síndrome do pânico, distúrbio de ansiedade e tantas outras que ainda estão por ser etiquetadas para atender as necessidades de uma cultura voraz que consome a possibilidade de ser humano.

2 comentários

  • Gabriela Silva
    Gabriela Silva, 19 Maio, 2016 12:05 Link do comentário

    Adorei o texto!
    Precisamos viver a vida diariamente, não podemos viver contando os dias para os finais de semana e os que faltam para as férias. Os períodos de descanso são tão curtos, que quando olharmos para trás só veremos que em 10 anos vivemos pouquíssimos dias tão felizes, nos quais representam menos de 10% de todo o tempo que tínhamos. E os outros 90%? O que fizemos?
    Triste demais!

  • Mayara
    Mayara, 17 Maio, 2016 11:05 Link do comentário

    Demais, André! Muito bom!!

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