Viajar é preciso?

Viajar pode representar a possibilidade de sair de nosso modo habitual de viver, uma saída do que muitos chamam hoje de “zona de conforto”. A possibilidade do encontro com o desconhecido, com o novo, com o diferente.

Mas o que seria esta tal “zona de conforto”? Ela é mesmo confortável?

Vale a pena destacar a importância desta para o nosso psiquismo. Muitos dizem não gostar de rotina, já outros se definem como clássicos rotineiros. Em muitas propagandas atuais a mensagem passada é: “Saia da rotina!”. Como uma forma de libertação. Neste caso sair da rotina seria como desligar o piloto automático. Pode ser bom mesmo apertar o botão de desligar de vez em quando, mas cabe também ressaltar a importância que o piloto automático pode ter para um motorista que percorrerá uma longa estrada.

A rotina pode representar uma organização necessária e benéfica para o nosso psiquismo, como uma espécie de limite. Tal limite, teria a função de demarcar esta tal “zona de conforto”, um limite afetuoso, cuidadoso. É como uma mãe que traz um cobertor para seu bebê quando ele tem frio, que traz comida quando há fome, que possibilita a existência de um ambiente suficientemente bom.

Muito cobertor, porém, pode dar calor, como muita comida pode gerar uma indigestão e se isto ocorrer a chamada “zona de conforto” ficará desconfortável. Desta mesma maneira, a rotina como um regulador benéfico para o psiquismo pode tornar-se patológica e o limite como um agente protetor pode passar a ser um limite que sufoca, que aprisiona.

A viagem, seria então, a possibilidade de ir além desses limites da “zona de conforto”, seja ela confortável ou não. Pode representar uma fuga de uma rotina aprisionada, como pode ser uma possibilidade de conhecer o que existe fora da caixa confortável, para quem sabe torná-la ainda maior e mais confortável, após a vivência de experiências que vão além do habitual. Experiências que exigirão a saída do piloto automático, mas que o deixarão mais elaborado e com novas funções para quando o viajante retornar para a estrada da rotina.

Cabe também apontar que nesta reflexão não estamos analisando a viagem em si, mas o que ela pode representar psiquicamente. Para ilustrar, observe o exemplo de alguém cuja rotina é viajar. O piloto automático de um comissário de bordo, por exemplo, só é desligado quando este para de viajar. Neste exemplo, ficar em casa (e não viajar) é que representaria psiquicamente a quebra do hábito, e a experiência com o novo.

Há pessoas que podem ter maior dificuldade para contatar o novo e desconhecido. Neste caso o novo pode ser enxergado como estranho, uma ameaça para a “zona de conforto”. Há também aqueles que fazem da experiência com o novo, um encontro lúdico e rico, tudo depende da particular e diferente história de cada um. E não é o fato de gostar de viajar ou não que dirá se alguém é mais ou menos saudável psiquicamente. Alguém pode dizer amar viajar, mas reproduzir sua rotina aprisionada na viagem, ou mesmo pode nunca ter saído de sua cidade natal, e ter tido ricas experiências com o novo. Viajando ou não, há diferentes modos de cada um pilotar sua nave psíquica a sua maneira.

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