O cão humano

Certa vez uma fala de um veterinário me chamou bastante a atenção: “É importante para os cães se sentirem cães”. A principio me causou estranheza, minha reação foi ficar em frente a ele com uma cara de “como assim?”. Quase fiz aquela típica entortada de cabeça que os cachorros fazem quando querem demonstrar incompreensão. Então ele riu, e explicou que era cada vez mais comum chegarem cães em seu consultório que se comportavam de modo a não reconhecer seus semelhantes como sendo da mesma espécie. Isso teria relação com o número cada vez maior de animais que passam o tempo todo em confinamento e, desde filhotes, fazem contato predominantemente com humanos.

Não é raro mesmo cruzarmos com esta nova espécie, os “cães humanos”. Eles usam perfumes, tomam florais, usam gravata depois do banho, comem chocolates e até panetone no natal. E paralelo a este fenômeno há também o desenvolvimento de uma grande indústria (como não poderia deixar de ser), hoje existem hotéis caninos de luxo e até tendências de moda para cachorros.

O cão sempre foi considerado “o melhor amigo do homem”, e nada mais justo seria trata-lo como tal, com todo o luxo e carinho que um grande companheiro merece.

Quando se compra um presente a um grande amigo, é natural tentar se colocar no lugar dele para acertar na escolha, e dar algo de que ele goste. Mas também é natural ”perdermos um pouco a mão” e deixarmos nosso gosto influenciar demais na decisão, sem ao menos nos darmos conta de que isto pode ocorrer. Nos faz parecer egoístas, mas por que será que isso ocorre?

É uma pergunta complexa, e não teria a capacidade de responde-la por completa, creio que não haja mesmo uma resposta que sacie a nossa curiosidade e esgote as possibilidades de outras possíveis respostas.

Há de se reconhecer que para cada vazio que uma pergunta possa abrir, nem sempre haverá a peça de resposta correspondente e que completará este espaço que, para a nossa angústia, permanecerá incompleto. E talvez tal incompletude possa ter relação com a nossa tendência a domesticar os animais e fazer deles o mais próximo possível de nossa imagem e semelhança. Deuses são frequentemente retratados na forma humana, até mesmo os extra terrestres, que ainda não tivemos o prazer de conhecer, costumam aparecer nos filmes com dois braços, duas pernas, dois olhos e uma boca, em um retrato que ao mesmo tempo nos parece bizarro, desconhecido, mas que ainda conserva grande parte de nossa imagem e semelhança. Por longo período pensávamos ser o centro do universo, e acho que esta fantasia ainda pode estar bem viva em nosso imaginário, caso contrário o concurso de beleza para conhecermos o (suposto) ser humano mais belo de nosso planeta não se chamaria “miss/mister universo”, mas “miss/mister planeta Terra”.

Por que então os cães, essas criaturas tão companheiras, sinceras e puras, não podem também ser humanizados, ou (como preferirem) domesticados? Dependemos desta conexão com o outro para dar sentido a vida, nos constituímos a partir do outro, de nossa incompletude, de nosso narcisismo, que ao mesmo tempo que nos abre uma ferida, nos constitui, nos faz sujeitos vivos e desejantes. E os cachorros muitas vezes assumem o papel deste outro tão importante para nós, são mesmo grandes companheiros, vivem em grande harmonia conosco, mas parece não ser justo que nesta relação eles percam a identidade de ser cão, como era a preocupação do veterinário que citei no início o texto.

Talvez humanizar o cachorro, ou manipular e criar novas raças caninas, seja mais uma de nossas tentativas ilusórias e em vão de negar que nós, humanos, somos incompletos. Ao mesmo tempo que este nosso vazio nos fere, pode também nos fazer reconhecer os limites capazes de nos libertar. Ao restringir ao cachorro o mundo humano, pode parecer irônico, mas creio que quem está se distanciando da liberdade somos nós. Ser livre é belo, mas liberdade pode representar desamparo, e quando não conseguimos lidar com tal desamparo, uma saída é alienar-se e abrir mão de ter a possibilidade de ser livre. Me faz pensar na imagem de um passarinho que desde que nasceu esteve na gaiola, o que será que ele acharia sobre a liberdade? Se arriscaria a voar caso um dia alguém abra a porta? Se o cachorro falasse (como gostaríamos que fosse) o que será que ele nos diria com toda sua inata sinceridade e pureza?

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