Netflix, o melhor amigo do homem?

Netflix, a ferramenta que a cada dia faz mais sucesso, permite em um clique o acesso à variedade enorme de conteúdo de filmes, séries, documentários, desenhos e tantos outros. O cardápio é realmente de respeito, tem opções para todos os gostos, besteirol para dar risada depois de um dia pesado, conteúdos profundos que fazem pensar, comédias românticas para os sonhadores e apaixonados, ação, suspense, terror. Não se restringe a nenhuma faixa etária ou público específico, o preço é justo e a ferramenta é ética e legal do ponto de vista jurídico, compensa os criadores e produtores das artes para poder exibi-las.

Até Silvio Santos, figura protagonista dos meios de comunicação no Brasil, em uma de suas costumeiras demonstrações de excesso de sinceridade, elogiou a Netflix (que não deixa de ser uma concorrência para o SBT). A resposta à propaganda gratuita foi também inteligente e espirituosa, Silvio foi condecorado honrosamente com uma assinatura vitalícia pela Netflix. O carismático apresentador pode ficar em paz, até o final de sua vida poderá contar com este bem precioso.

Antes que este texto ganhe ares de uma descarada propaganda - definitivamente não precisaria disso pois o produto em questão se vende por si– devo apresentar-lhes a indagação que me motivou a escrever sobre o assunto.

Muitos brincam que “Netflix é vida” e ao mesmo tempo que “Netflix destrói a vida social”. Seriam afirmações contraditórias, ou a vida que vale a pena seria a que impõe limites às demandas sociais?

Assistir Netflix é uma experiência de retraimento, normalmente no aconchego do lar. Seria a possibilidade de acessar uma área importante do nosso psiquismo, a área do tempo subjetivo, da criatividade, da espontaneidade. Uma área de recolhimento do tempo objetivo em que cada minuto tem de ser medido, em que muito se doa para as demandas externas e pouco se olha para o que é pedido internamente. Não é frequente se esquecer do tempo objetivo quando começamos a ver uma boa série no Netflix? E o sentimento de sair do espaço e de um tempo que não se conta pode ser um processo bastante rico e prazeroso.

Veja aquela expressão popular “esqueci da vida, foi ótimo!”, ilustra um pouco esta experiência.

Minha hipótese é de que esse movimento de brincadeiras e piadas referente ao uso da Netflix como uma necessidade básica humana, poderia ser a expressão de uma voz que clama por ser ouvida. Uma voz que prefere vestir os pijamas em uma sexta feira fria e chuvosa, ao invés de ir tomar uma cerveja gelada em um bar com os amigos. Uma voz que pede que seja possível recusar um compromisso social, que vê a importância deste contato com o lúdico e espontâneo. Uma voz que enxerga a importância de intervalos de retraimento, em uma sociedade que pode restringir a possibilidade de que o sujeito respire e desfrute de sua real companhia. Uma voz que se reconhece mais com um macio pijama de bolinhas do que com uma roupa da moda extremamente desconfortável.

E a via do humor facilita e muito a expressão desta voz, pois o humor tira um pouco o peso do julgamento, a brincadeira em muitas situações serve como importante ferramenta para falarmos de questões importantes. Antes que possa haver qualquer julgamento, não acho que esta voz seja uma voz de depressivos que querem fugir da luta, que querem abdicar da vida social. O intervalo de retraimento e das demandas internas é importante, como também o contato social, a cerveja com os amigos (ou a tubaína com os amigos, por que não?). A compulsão pelo retraimento seria tão patológica quanto a compulsão por atender todas as necessidades sociais. E por que uma cerveja gelada em um dia de frio e chuva não pode ser um programa prazeroso?

Não há regras para isso, ainda bem! Mas para que seja possível que a cerveja no frio seja autêntica, deve existir a alternativa de dizer não, de ir por escolha e não por exigência, ou a possibilidade de ir vestido como bem entende. Quem sabe os pijamas de bolinha saiam do aconchego dos lares e passem a aparecer nas ruas, quem sabe a espontaneidade de Silvio Santos torne-se mais frequente e menos estranha em nosso dia a dia. (Ok, fui longe no nível de espontaneidade, não há necessidade de chegar tão longe, mas serve como exemplo).

Netflix nem é o tema em questão, o centro do conflito é a nossa vida e a importância de dar expressão às demandas externas, mas sem que esta sufoque a possibilidade de alternância com intervalos do que o sociólogo Domenico de Masi chamou de ócio criativo. Nossa saúde psíquica depende dessas alternâncias rítmicas entre a objetividade do fazer e a subjetividade do ser. Netflix e tantas outras ferramentas que tiram o sujeito do frenético e do automático estão pedindo espaço, espaço que pode também ser ocupado pela simples possibilidade de estar só, sem nenhum estímulo, com liberdade para fazer emergir o ser em uma época pautada pelo fazer.

1 Comentário

  • Gabriela
    Gabriela , 24 Maio, 2016 01:05 Link do comentário

    Adorei o texto!
    Posso dizer que o Netflix é muito mais legal do que muitos humanos por aí, rs.
    Mas realmente, o importante é não nos obrigarmos a sair ou a ficar em casa , temos que fazer o que estivermos afim e não o que a sociedade pede de você naquela hora.

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