Amor próprio ou narcisismo?

Narcisista, o adjetivo ganhou status de xingamento, e por vezes é ouvido em discussões acaloradas, pelas ruas, nas novelas e filmes. No linguajar cotidiano tem um peso forte e frequentemente vem acompanhada em nosso imaginário por outras palavras com potencial destrutivo: egoísta, arrogante, mesquinho.

Amor próprio, a expressão que também tornou-se lugar comum em nosso cotidiano:

“Amiga (o), tenha amor próprio, ele (ela) não vale a pena”.

“Você não pode abaixar a cabeça para seu (sua) chefe, onde está seu amor próprio?”.

O narcisismo é um conceito bastante complexo no campo da psicanálise. Não poderia ser capaz de abordá-lo com tamanha amplitude e profundidade, mas a grosso modo podemos dizer que o narcisismo é algo constituinte para nós, humanos. O bebê, antes mesmo de nascer já está sendo “narcisado”. Ao ser desejado pelos pais, na escolha prévia das roupinhas que vestirá, nas conversas com a barriga, na escolha da cor da parede do quarto, do nome, tudo isso contribui para que quando ele sair da tranquilidade do útero, haja aqui fora um ambiente “tranquilo e favorável” (como diria o funk) a sua espera. Mais do que “tranquilo e favorável”, um ambiente suficiente, protegido para que haja a possibilidade de o bebê viver a relação com sua mãe de maneira que possa ser narcisado por ela. É a partir desta relação que o psiquismo se constitui, em um ambiente confiável, que traga a possibilidade inclusive da vivencia de frustrações e angústias, também importantes para a formação psíquica.

Neste caso, quando há frio, o bebê dará o sinal ao ambiente (frequentemente pela via do choro), e saberá que embora tenha que esperar por alguns instantes, logo virá o cobertor que o acolherá. Caso não haja este ambiente “tranquilo e favorável” para que o bebê seja narcisado, qualquer separação, ou sensação adversa como fome pode ser vivido como aniquilador, não havendo a possibilidade de lidar com tamanha intensidade da ameaça que, neste caso, a fome será vivida como puro desamparo, não havendo a confiança de que será saciada.

Também é importante que haja por parte da mãe, a sensibilidade e a tranquilidade para não invadir este espaço a que Winnicott (psicanalista inglês contemporâneo de Freud) denominou de “ambiente suficientemente bom”. Uma mãe ansiosa e que antecipa a todo instante as necessidades do bebê, também causará impactos na constituição psíquica deste. Tão importante quanto se sentir seguro, é o espaço para que o bebê possa lidar com os estímulos do mundo externo, e sinalizar quando precisa de ajuda da “mãe suficientemente boa”. Esta o atenderá respeitando este lugar importante para que o bebê receba os estímulos externos, e tenha seu tempo subjetivo para acessar seu psiquismo e lidar com eles, e assim sucessivamente, de maneira que a cada experiência vivida seu mundo interno estará mais rico e forte.

Certa vez em uma palestra um psicanalista comentou que este processo seria como transformar uma caverna em um lar aconchegante. É como se o psiquismo do bebê chegasse como uma caverna e o narcisar amparado por um “ambiente suficientemente bom” fosse capaz de transformá-la em um lar aconchegante.

O narcisar o sujeito a partir de sua existência permitirá portanto que ele seja um adulto mais capaz de sentir o que é chamado hoje popularmente como o amor próprio.

A expressão “amor próprio” muitas vezes está relacionada à uma fantasia de independência, da capacidade de estar só. A mensagem é: ”você não precisaria de seu chefe, ou de seu namorado caso ame a si mesmo”. Verdade que a capacidade de se sentir suficientemente bem só, ou amar a si mesmo, pode ser importante para lidar com uma vida sempre pronta a colocar obstáculos, a lançar ocasiões que nos frustram a todo momento. É ilusório, porém, que o humano possa viver apenas com seu amor próprio. Precisamos do outro para viver, nos constituímos psiquicamente a partir da relação com este outro que originalmente está representado pela figura materna. Ao contrário dos animais, o humano nasce desamparado, e caso não haja a possibilidade de ser narcisado, viveríamos em uma caverna fria e escura, ou em uma casa com teto mas sem chão.

Já o narcisista do linguajar popular, ou aquele incapaz de enxergar o outro, talvez no processo de transformação de sua caverna em lar, os móveis foram tantos que taparam as janelas. A bolha materna necessária e protetora nunca foi superada, e há sempre uma ilusão de que é possível voltar para este lugar de que Freud chamou de “a majestade o bebê”. Ser narcisista, portanto, pensando pela ótica da psicanálise, é uma condição constituinte do sujeito, e está ligada com a história singular de cada um, sendo os primeiros anos de vida de grande importância e estruturante para nosso psiquismo.

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