Destaque Psicanálise. Para quem?

Psicanálise. Para quem?

Há duas perguntas muito frequentes que me fazem quando conheço alguém e porventura vem à tona o assunto da psicanálise:

- Você acha que todos deveriam fazer análise?

- Psicanálise é para loucos? (normalmente em tom de brincadeira)

Ambas as perguntas podem trazer em si suposições implícitas. A primeira de que sendo a psicanálise algo valoroso, deveria ser para todos, e a segunda de que a psicanálise poderia curar os loucos.

Creio que seja importante considerar o valor da subjetividade e individualidade de cada sujeito que pergunta. O que é ser louco para cada um? O que é ser louco para a cultura e sociedade em que estamos inseridos? Qual a sua compreensão de loucura no universo cultural e social em que estamos vivendo?

Devolver uma pergunta com outra pergunta é algo que pode ser perturbador, mas neste caso representaria algo importante. Possibilitaria compreender melhor o que não está dito (ou o que está implicitamente dito) na pergunta. Seria também uma maneira de implicar quem pergunta na questão que fez.

Um pouco parecido com um processo de análise, em que a dupla paciente/analista busca perguntas que podem dar luz a algo que sempre esteve atuante, mas que até então esteve presente somente de modo inconsciente. Tal trabalho, só é possível com o engajamento do paciente (e do analista) no processo, e possibilitaria uma maior compreensão do mundo interno deste, o que faria com que o leque de possibilidades para lidar com suas demandas do mundo externo fique mais elaborado.

Isso desmistifica um pouco a figura do analista como um guru, neutro, sabedor de todas as respostas, pronto sempre a dar uma interpretação sagaz que resolverá os sofrimentos de seu paciente. Ao contrário, a análise demanda um analista humano e perceptível, e um paciente que veja sentido no processo, caso contrário não há possibilidade para que o encontro seja rico, espontâneo e criativo.

Para não ficarmos somente no âmbito das perguntas, vou tentar responde-las do modo mais objetivo possível a partir de minhas experiências (tentando me desvencilhar do que um suposto dogma psicanalítico diria). Minha intenção, porém, é que as respostas possam causar mais reflexões do que conclusões.

Você acha que todos deveriam fazer análise? Creio que a análise seja para todos que querem se perguntar, que podem se perguntar, ou mesmo àqueles que não tem ainda condições de fazer perguntas, mas precisam de auxílio para construi-las.

Aos que perguntam buscando uma resposta definitiva e pré-determinada, àqueles que querem ser orientados e conduzidos, aos que gostariam de uma solução rápida e efetiva de seus problemas, honestamente não acho que valha a pena buscar a psicanálise. E aos que estão bem e não vê sentido em questionar-se idem, a psicanálise não é para todos, é para quem quer. E não há nenhum desconforto em dizer isso, seria muita pretensão e onipotência achar que todos devem buscar análise.

Àqueles que têm vontade, mas sofrem com algum receio, o tempo ou alguma experiência vivida podem levar a busca de auxílio pela psicanálise quando se sentirem confortáveis com isso. Sobre a segunda pergunta. Psicanálise é para loucos? A cultura e sociedade em que vivemos faz pressão para que caminhemos no sentido da normalidade. Uma normalidade que ao ser alcançada torna-se uma insígnia social. Sujeito normal, bem sucedido. Bem sucedido em se ajustar a uma normalidade, mas nem sempre isto representa ser bem sucedido na possibilidade de viver de modo espontâneo com seu verdadeiro self. Se analisarmos sob esta ótica, eu me atreveria a dizer que a psicanálise trabalha no sentido contrário da normatização do sujeito nesta corrida imperativa pela felicidade e por ser bem sucedido, busca esta que não raramente impõe ao sujeito contemporâneo a abdicação de seu verdadeiro ser.

A psicanálise iria na direção de possibilitar que o sujeito entre em contato com seu verdadeiro self, mesmo que isto gere um sofrimento. Sim, é permitido sofrer, e ao reconhecer que o sofrimento tem seu lugar em nosso psiquismo, o contato com o mundo pode ficar mais leve e espontâneo. Ao se conhecer melhor, os momentos de felicidade podem se tornar não permanentes, mas genuínos enquanto possíveis. Respondendo a pergunta diretamente, diria que a psicanálise não é essencialmente para os loucos, mas também para os normais que permitirem reconhecer suas loucuras.

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