A formação de um analista

O texto abaixo foi escrito na ocasião de conclusão do curso de formação que realizei no CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos). Acho interessante compartilhar aqui no site, pois trata sobre um tema relevante para quem tem interesse em atuar na área. O processo de formação de um psicanalista vai além de um diploma ou um certificado de conclusão de um curso, mas muito da construção particular de um caminho e a autorização interna para se tornar analista. Abaixo algumas pinceladas sobre o percurso pelo qual iniciei minha prática clínica:

A primeira questão que surgiu e me despertou a atenção ao iniciar esta escrita foi: “Estou finalizando minha formação em Psicanálise?’ Se a resposta fosse positiva, poderia ser mais coerente definir este texto como algo conclusivo, mas fico mais à vontade o tratando como uma reflexão.

A reflexão pode levar a uma conclusão? Uma conclusão pode ser definitiva? Há fim para a formação de um analista?

Perguntas geram reflexões, que são importantes para criar algo. Respostas, por sua vez, tendem a ser perigosas na medida em que podem concluir algo e fechar as portas para a beleza de uma reflexão.

Também é inevitável dizer que sem respostas não há construção. Não é a toa que a expressão “Freud explica” se tornou tão popular. Freud criou a Psicanálise, dedicou uma vida refletindo e respondendo à indagações por longos anos até o final de sua vida. Foi questionado por si, por seus colegas médicos, pela Sociedade de Psicanálise, por sua família, pela cultura e tradições rígidas da época.

Construiu uma Teoria sólida, baseada em muito trabalho, em muita reflexão, e grande dose de convicção, mas uma convicção que não se fecha em seu fim, mas está aberta a novas possibilidades. Como creio que deve ser a escuta de um analista, atenta, convicta, mas flutuante, nunca conclusiva.

Freud era convicto na construção de suas teorias, mas também convicto da complexidade do psiquismo humano, e isso permitiu que este inventasse e, mais importante, reinventasse a Teoria Psicanalítica ao longo de sua construção, dando fim a uma obra inacabada.

“Freud explica”, mas antes de explicar “Freud indaga”, Freud refletiu muito antes de concluir. E deixou sua obra para ser questionada, refletida, debatida, e reinventada por seus sucessores sem distinção de títulos.

Como Freud acreditava, parece ser incabível definir uma regulamentação da Formação em Psicanálise, afinal como regulamentar o inconsciente? Como definir o caminho de uma formação de um analista, se não considerando a individualidade do processo de cada sujeito postulante a atuar como analista?

Feita esta pequena introdução passarei agora a uma breve reflexão sobre o processo de minha formação em Psicanálise na instituição Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP).

Achei por bem reforçar alguns momentos que considero cruciais no processo de minha formação. Embora acredite que um analista está em constante formação e que não haja um momento conclusivo e final deste processo, acho que existem ciclos e marcos importantes, partes de um todo que não se completará e viverá sempre na falta. O todo sem falta seria uma mera ilusão. Neste caso a falta não angustia, mas alivia.

Fazendo um paralelo com a Obra de Freud, existiram momentos marcantes e fundamentais para construção de sua Teoria, como o estudo das histerias, a publicação de Interpretação dos Sonhos, os Três Ensaios sobre a Sexualidade, Introdução ao Narcisismo, a passagem da Primeira Tópica para Segunda Tópica, o ‘surgimento” do conceito de Pulsão de Morte, dentre tantos outros. Ao construir algo com tanta paixão e dedicação, Freud abriu espaço para que outros grandes mestres pudessem criar novas formas de pensar a Psicanálise, e não acredito que um dia o ciclo seja fechado, mas continue vivo e em constante movimento.

A partir de várias influências e leituras, pude aos poucos ir me construindo e desconstruindo como analista, e o caminho inacabado de minha formação, pode ser dividido até então em 3 pilares de sustentação:

- Interesse na Psicanálise e início do curso de formação.

- Início de minha própria análise.

- Início de minha atuação como psicanalista.

1 – Interesse na Psicanálise e início do curso de formação

O início da formação de um analista, creio que se dá sem que haja consciência deste. Uma pergunta que acho interessante e desde o começo do curso eu me fiz foi ”que fantasia desperta em mim ser um analista?”.

Ainda não tenho uma resposta conclusiva para a pergunta, mas em minha própria análise tive reflexões sobre ela, e acho que esta indagação pode ser rica para a construção de um analista.

Não me recordo quando foi a primeira vez em que ouvi falar, ou tive contato com a Psicanálise. Apesar de não saber dar nome, desde criança me intriguei e fui bastante curioso sobre como o meu funcionamento e o dos demais ao meu redor pareciam estar condicionados a uma força que era ao mesmo tempo perigosa e fascinante. Atuante, mas invisível, insistente, forte, mas intangível.

Tenho em minha família pai e tio que atuam como Psicanalistas. Possuo algumas memórias infantis de conversas entre eles sobre o que me parecia ser maluquice na época, mas que me tocavam de certa forma, era uma maluquice que naquela ocasião eu não pude assimilar e participar das discussões, mas que de alguma forma fazia sentido para mim.

Levei um tempo até procurar saber quem era Freud, Lacan ou Winnicott e buscar leituras sobre a Psicanálise. Inclusive fiz um caminho um tanto quanto reverso quando penso em formação de um analista.

Primeiro tive contato com a teoria, mais intensamente ao iniciar o curso de formação, e somente depois dessa aproximação teórica é que fui procurar iniciar minha própria análise.

A princípio me pareceu um caminho reverso, mas não errado, afinal o que é certo e errado quando estamos falando de psicanálise? Existem regras éticas, temas fundamentais, pilares importantes para a formação de um analista, como estudo da teoria, auto análise, e prática da escuta analítica, importância da supervisão, mas difícil dizer qual o caminho a ser seguido. Hoje estou convicto de que cada analista deve se formar a sua maneira, com seus recursos, com a particularidade de sua história, construindo a sua clínica psicanalítica, respeitando os pilares, mas dando seu próprio contorno.

Escolhi estudar no CEP pois me pareceu uma instituição que desde o início deixou bem claras as regras e pilares, mas que respeita esta individualidade e dá espaço para a pluralidade. Pluralidade que não distorce a essência da psicanálise, que propicia pensamentos psicanalíticos diversos, com conteúdos que serão ferramentas para a formação de um analista.

No desenrolar do curso, tive uma percepção de que ele é estruturado de certa forma como se desenvolve um processo analítico.

A princípio fazemos as primeiras entrevistas, estabelece-se um contrato com muita clareza, e aos poucos, apoiados por uma construção teórica e pelo desenvolvimento da escuta estimulada em grande parte pelos momentos de discussão clínica, nos tornamos senhores de nossa formação, autores de nossa obra, como ocorre na construção dos trabalhos a cada ciclo, estimula-se o desenvolvimento de uma identidade necessária para a formação de um analista.

2- Início de minha própria análise

Iniciei minha análise ainda no primeiro ano de formação no curso do CEP, e foi fundamental para os assuntos que estudaríamos a partir daí. Como estudar a transferência sem nunca a ter vivenciado, como falar de resistência sem ter experimentado?

Poderia sim ser capaz de explicá-la, de conceituá-la, de refletir sobre o tema, mas nada a se comparar com sentir. Em minha opinião a teoria em certa medida tem grande valia para a prática, mas não se sustenta só para os postulantes a analistas.

Hoje entendo ser possível um aluno se formar sem esta vivência de fazer sua própria análise, mas seria impossível para a formação de um analista passar desapercebido por este processo.

Para tornar-se senhor de sua obra, é preciso se haver com suas questões, estranhamentos, fantasias e desejos. Freud foi o precursor, não fez sua própria análise de modo convencional com um outro analista, mas acredito que se indagou muito sobre suas questões, e embora não à maneira convencional, encontrou-se com o seu desconhecido íntimo. Acredito também que devem ter sido muitos os interlocutores que o ajudaram neste processo de autoanalise e de construção de sua obra psicanalítica, como Fliess, Breuer, ou seus familiares por exemplo.

3 - Início de minha atuação como psicanalista.

Difícil apontar o momento oportuno de se lançar, mais uma vez acho que passa muito pela subjetividade individual neste processo complexo da formação de um analista.

Trabalhei em minha própria análise esta autorização para ser um analista, o que isto representava para mim, e o que era necessário para ser um analista.

E só foi possível quando a compreensão e a autorização vieram de dentro para fora, e não de fora para dentro, como acredito que deve ser em um processo de análise mesmo. A interpretação sem a elaboração interna não tem efeito positivo para o andar de uma análise. Certa vez no curso de formação uma frase me tocou, dizia “que a melhor das interpretações é aquela que vem do paciente”.

Fez sentido para mim passar por esta autorização interna visando atuar como analista.

Não é o fim de um curso que vai dizer se estou formado como psicanalista ou não, mas a experiência e construção interna. Importante do curso é oferecer substância e ferramentas que possibilitem a construção interna.

E a partir das minhas primeiras experiências atuando, cada vez fizeram mais sentido as diversas etapas e momentos do curso. Também foi fundamental a supervisão e discussão dos casos.

Quanto mais penso com a ajuda de colegas e professores, mais janelas são abertas, mais hipóteses são criadas, mais curioso fico, posso até dizer que mais confuso fico, mas ao mesmo tempo mais convicto. Convicto de que não existe conclusão para algo tão complexo como é o psiquismo humano, convicto de que a reflexão analítica pode ter bons efeitos, e convicto de que cada história de análise na clínica passa por um manejo diferente, mas que cada analista tem sua essência e seu estilo determinado por sua constituição ao longo se sua historia única e particular.

André Girola

Psicanalista Website.: www.andregirola.com.br E-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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