Identidade produzida

Trazendo o tema da identificação para um contexto atual em que as redes sociais passaram a ser grandes mediadores na relação entre as pessoas, a internet pode funcionar como um grande medidor narcísico. O número de cliques, o número de seguidores, o número de curtidas, o número de acessos à página de um perfil, são postos como indicativos concretos e indiscutíveis para que se quantifique o quão amado é um sujeito. E quem de nós não quer ser amado? Pode ser difícil admitir, mas a verdade é que nenhum de nós está imune a isso. O humano não vive só, precisa do amor do outro para que se constitua psiquicamente.

A vida virtual, que promete ser um grande facilitador de nossas relações, paradoxalmente parece só fazer aumentar o grande vazio do sujeito, que é constantemente estimulado pelos meios de comunicação. Insistentemente, e imperativamente rende-se à ideia de que o vazio pode ser preenchido, ou comprado.

As curtidas, os seguidores, o número de cliques e amigos virtuais passam a ser uma das convocações para que se preencha esse ideal. E o que faria mais sucesso nas redes sociais seria um conteúdo com o qual o maior número de pessoas se identificassem. A página de um perfil na rede social, assim, apresenta-se como um cardápio, cheio de adjetivos, indicativos de quão interessante possa ser tal pessoa real e virtual simultaneamente. Uma olhada e já poderíamos dizer se aquela figura tem potencial para ser interessante de acordo com o ideal de cada um. A internet então passa a ser um mundo para criação de vínculos virtuais infinitos, em que o sujeito se identifica e tem o desejo narcísico de que o maior número de pessoas se identifiquem com ele, de preferência milhares de pessoas, afinal o mundo virtual não limita barreiras, é um mundo aparentemente infinito de possibilidades. Há uma sensação, porém, de que esses vínculos não se ligam, mas como poderiam ligar-se se ninguém os vê? O mundo virtual é wi-fi! Sem os fios visíveis, podemos somente imaginá-los! Nem por isso deixam de provocar a sensação de que são reais.

No mundo virtual, existe a possibilidade da criação de um perfil a bel prazer de cada um. Talvez nesse perfil ideal esteja a personalidade com a qual gostaríamos de ser enxergados, e não aquela com a qual de fato nos deparamos. Claro que nem sempre isso acontece, mas nesses casos não há possibilidade para um investimento na personalidade genuína e espontânea, mas a que resta é uma identidade produzida e moldada pelo que se imagina ser bem aceito pelo mundo. Mundo que cobra, e caro!

O virtual passa então a ser manipulado onipotentemente transformando-se em uma ferramenta de defesa para que não emerja o verdadeiro ser (que não consegue simplesmente existir e ser, em um ambiente que cobra adjetivos, completude e perfeição), levando à construção de um falso ser adaptativo, embora real e acessível aos cliques. Seria como a construção de um personagem, que em dado momento não sabe mais reconhecer o que é de si e o que é do personagem, e assim o falso e o real fundem-se. Com este cenário não existe ser ou viver, existe o estar para sobreviver.

Para que o personagem não desapareça da trama, ele deve saber atuar. É como se o personagem tivesse a função de proteger a pessoa real do ator. Neste caso, porém, a cortina nunca se fecha indicando o fim do espetáculo, e então a ficção deixa de ser percebida como ficção e passa a ser a vida em cima de um palco, sem momentos para a privacidade e espontaneidade dos bastidores ou camarins (locais tão importantes, quase que sagrados para o artista). Assim, o artista fica muito enredado pelo roteiro e suas falas, e pouco pode emergir o contato com o sentimento e a essência de cada cena.

Me fez lembrar dos reality-shows, em que fica difícil estabelecer e visualizar os limites do que é falso e o que é real. Não à toa a cada início de BBB, a discussão pública se acirra. As pessoas parecem estar cansadas de não enxergar esta linha do ator e da pessoa real, talvez por que já vivem constantemente em suas vidas com esta angústia. Não haveria motivo, assim, para reviver esta sensação ao assistir uma ficção que se auto denomina “o jogo da vida real”.

Falando em atores moldados, personagens que perdem espontaneidade, me vem em mente um paralelo com a política. As campanhas políticas também são tentativas de criação de um candidato ideal, capaz de atingir o maior número de membros de uma coletividade. O mestre deve conduzir a massa e ocupar a posição de ideal para esta, de forma que a identificação seja capaz de ligar o maior número possível de membros de uma coletividade capaz de elegê-lo.

Não é à toa que hoje se usa com tanta frequência a palavra produção. Produz-se um político, produz-se um jogador de futebol, ou um músico, e muitas vezes a essência da música é deixada de lado, o talento do jogador é ofuscado pelo corte de seu cabelo ou a cor de sua chuteira, e o conteúdo da proposta do político perde o valor em detrimento de como ele deve se portar no debate eleitoral. Importante é identificar o público alvo para vender bem a embalagem do produto. Resta saber se o público alvo se identifica com o produto em sua essência e utilidade, ou com a embalagem fruto de uma produção. A primeira opção me parece muito mais livre e atrativa, mas difícil de ser alcançada pensando no contexto do que alguns autores chamam de sociedade do espetáculo, ou sociedade das embalagens, das cascas, da superficialidade, da futilidade, da falsidade, da estética, da vitrine, etc. Há muitos nomes possíveis, estejam livres para denominar como preferirem.

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