A cega paixão pelo futebol

O futebol envolve paixão, irracionalidade, amor e ódio. Alguns o tratam como esporte, outros como religião, há quem veja no futebol a razão do viver. Pode ser visto como expressão popular, um forte traço da cultura. Ou (como dizem aqueles que não gostam) “22 homens correndo atrás de uma bola”. O que, afinal, é o futebol? Por que ele mexe tanto com as emoções humanas?

Domingo e Quarta feira são dias de jogo, e nos dias que sucedem, ao ligar a televisão, ou simplesmente andar pela rua, há discussões acaloradas presentes nos bares, padarias, escritórios, restaurantes.

O futebol é um dos poucos temas capazes de penetrar em todas as classes sociais, em diferentes nichos da sociedade, e ainda, uma das poucas expressões capazes de criar pontos de intersecção entre esses diferentes recortes sociais. Discute-se futebol em um canteiro de obra, em um condomínio de luxo, em um asilo para idosos, em uma escola de crianças, por que não abordá-lo, então, em um contexto Psicanalítico?

Vale lembrar que o futebol nem sempre foi assim reconhecido como expressão popular. Começou como um esporte restrito às elites.

Partindo do exemplo em São Paulo, aqueles que podiam praticar e ter acesso aos jogos eram somente indivíduos da alta sociedade, assistir ou chutar uma bola era, até então, um privilégio. Já a classe operária, não tinha acesso ao futebol. Para os marginalizados, o acesso ao futebol seria a realização de um desejo, a busca de saciar uma falta. Sendo assim, improvisaram. Mesmo sendo um esporte de elite, não havia necessidade de grandes investimentos financeiros para pratica-lo. Bastaria um espaço plano, grande, as traves poderiam ser feitas com madeira, pés descalços e uma bola, e o jogo já poderia começar.

Enfim, os operários e imigrantes marginalizados puderam jogar, conseguiram por um momento realizar o desejo e saciar a falta. Desta forma tiveram a falsa ilusão de alcançar o objetivo e consequentemente a plenitude, mas foi uma sensação breve, efêmera, logo se esvaiu.

O desejo permaneceu. O que por um breve momento parecia estar preenchido e saciado, voltou a pulsar insistente e intensamente. A partir de então a busca pela plenitude passou a ser integrar a Liga Oficial que havia sido criada pelos privilegiados, jogar bola nos campos improvisados não era mais suficiente.

Depois que fizessem parte da Liga o objeto do desejo poderia mudar novamente. Passaria a ser ganhar a Liga e uma vez que ganhassem a Liga seria criar outra Liga mais grandiosa, e daí por diante, em uma jornada interminável em busca da tão sonhada plenitude.

O futebol que move massas de apaixonados pode ser visto em diferentes abordagens como esta ilusão de completude. Pode ser a peça que preenche um espaço vazio de falta inesgotável, dando uma falsa e maravilhosa sensação de preenchimento.

Nos veículos midiáticos vende-se a ideia de que cada singular torcedor foi parte da conquista de um time, e de fato esta ideia é sentida. Sem o apoio do único e especial torcedor, o time não chegaria a tamanho êxito. O torcedor passa a ser uma parte de um todo, ele é acolhido pela massa e todos se reconhecem e identificam-se em prol de um objeto comum, seus times do coração. Em um estádio de futebol, múltiplas e singulares pulsões canalizam-se para o mesmo objeto, o racional abre espaço para o irracional, e a energia é descarregada na busca pela vitória. Os jogadores representam em campo o torcedor, e este passa a ser, por que não, uma extensão de seu fã dentro das quatro linhas. Milhares de torcedores fundem-se em uma espécie de unidade. A repressão e a censura afrouxam-se, e o futebol pode então se tornar objeto de descarga.

Assumindo diversas representações psíquicas e sendo objeto de diferentes pulsões do sujeito, tudo vai depender de como este indivíduo se relaciona consigo mesmo e com o mundo externo para saber qual o lugar do futebol em sua vida. ‘Hobbie” para alguns, vício para outros, oportunidade de reunir familiares e amigos, ou em casos extremos até instrumento para barbárie. Afinal, amor ou ódio?

Ambivalência é marca presente nas relações apaixonadas, com o futebol não seria diferente. O mesmo time capaz de despertar imenso amor quando ganha também pode despertar intenso ódio quando perde. Em uma torcida de futebol, as interdições se afrouxam, e as pulsões se satisfazem mais livremente, daí a satisfação de torcedores apaixonados. Ir ao estádio muitas vezes com frio e chuva pode ficar mais atrativo do que assistir seus times jogarem com uma visão bem melhor do conforto de seus lares. Parece fantasia, não?

Mas como na “vida real”, no futebol existem leis, regras. Por mais que o torcedor ame seu time, ele deverá aceitar que ele não vai ganhar todos os jogos e campeonatos, ele está submetido a uma Lei Maior, um Campeonato com regulamentos e outros times com outras qualidades que podem ser maiores do que as suas. Seu clube poderá até conquistar algo grandioso, um troféu importante valorizado pela cultura, mas a conquista será passageira e não o completará, logo terá que buscar um novo troféu.

E em nosso dia a dia seria diferente? No nosso trabalho, nas nossas conquistas? Quando conquisto uma promoção em meu trabalho, a sensação é incrível, mas no dia seguinte devo deixar de me vangloriar e comemorar para assumir as maiores responsabilidades que condizem com meu novo cargo.

O futebol pode ser capaz de nos transportar para um lugar maravilhoso de completude e onipotência na vitória, mas na derrota ele pode ser castrador como seria uma demissão do trabalho, ou um infortúnio na vida pessoal. A grande diferença é que na vida real temos que nos reaver com a nossa responsabilidade em cada derrota, é inevitável ver nossa imagem em um espelho imaginário a cada infortúnio, é difícil, machuca. No futebol meu time perdeu, mas foi culpa do juiz que não marcou aquele pênalti, ou do técnico que fez mudanças erradas, ou daquele jogador que perdeu o gol aos 45 minutos do segundo tempo, machuca também.

É de senso comum falar que quando nos apaixonamos ficamos cegos. E como torcedores apaixonados, tal cegueira é inevitável. Mas é uma cegueira que nos dá prazer, vital e mortal, antagônica, mas ao mesmo tempo complementar. Ambas as forças se associando para que seja possível um equilíbrio psíquico a favor da vida. Seria a paixão cega pelo futebol uma doença? Seria a vida suportável sem cegas paixões?

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