A identificação

Durante o desenvolvimento pessoal, a partir de experiências vividas, assimilamos características ou propriedades daqueles que estão ao nosso redor. Na medida em que nos apropriamos de algo ligado ao outro, transformamos e construímos nossa própria personalidade.

Pode haver uma maior ou menor facilidade para que os relacionamentos se sustentem, dependendo de maior ou menor grau de afinidade disponível. Claro que isto não exclui a possibilidade de pagodeiros e roqueiros, gordos e magros, petistas e tucanos, criarem vínculos e se relacionarem harmoniosamente. Tudo dependerá, porém, do que cada objeto representa para cada um, tanto no plano consciente, como (principalmente) no campo do inconsciente.

Ao falarmos do inconsciente, e como ele atua nas relações sociais e nas nossas relações com o mundo externo, temos de abordar o conceito psicanalítico da identificação. Talvez uma das diferenciações entre a empatia ou mesmo afinidade tão usadas na linguagem cotidiana, com os processos de identificação para a psicanálise, é que os primeiros normalmente são usados pensando em um plano racional ou consciente, enquanto que o segundo leva em conta também o fator da influência do inconsciente. Algo mais primitivo, forte, imperativo, e ao mesmo tempo desconhecido.

Quem nunca ouviu as seguintes frases, ou algo próximo de: “Não sei o que é, mas não consigo ir com a cara de fulano, é mais forte do que eu”, ou “Tento gostar de ciclano, mas realmente não consigo, algo nele mexe comigo”. E não se sabe o por que, a causa é oculta. Mas por ser oculta, não deixa de estar presente e atuar nos influenciando em cada situação do dia a dia.

O que não é explicável neste caso não está no campo da lógica racional ou da consciência, mas dos processos de identificações primárias e inconscientes.

Ao falar de afinidades, empatia e pontos de interesse em comum, estamos falando de algo que é consciente, mas que de alguma forma passa também pela identificação no campo inconsciente. É uma “escolha”, e as aspas se justificam por não ser uma escolha consciente. Não é algo passível de controle, portanto, não é uma escolha deliberada com base racional. É uma identificação inconsciente ligada ao plano subjetivo, no qual cada um de nós possui seus afetos e sentimentos marcados por uma história singular, que desde sua origem passa a influenciar nas relações presentes, mesmo sem nos darmos conta de que isso acontece.

Sobre o conceito de Identificação para a Psicanálise

Para Freud, a identificação está fundada no complexo de Édipo, na medida em que o pai e a mãe são objetos de ambivalência, de amor e rivalidade. A criança teria duas possibilidades: assumir uma posição ativa e tomar o lugar do pai para satisfazer suas fantasias amorosas com a mãe, ou uma posição passiva para tomar o lugar da mãe (no caso do menino). Ao constatar que as fantasias edípicas não serão satisfeitas ou efetivadas sem a realização da castração, a criança tem de sublimar as fantasias incestuosas, e os investimentos libidinais são substituídos por uma identificação. Para que isto ocorra, é necessário que haja uma separação entre uma relação sensual, que é recalcada, e uma relação afetuosa, que permitirá a identificação. O superego então passa a ser uma instância identificada com as autoridades parentais, que são introjetadas no núcleo do mesmo.

Em sua teoria, Freud aborda diferentes modalidades de identificação, leva também em conta uma identificação que pode se opor àquela em que se baseia no enriquecimento ou constituição do ego ou de uma instância da personalidade. Seria como um processo inverso em que o objeto pode ser posto em um “lugar” dos ideais do sujeito, perspectiva em que há um mestre e seus discípulos membros de um grupo. Neste caso, o sujeito identifica o outro com sua própria pessoa, opondo-se ao primeiro caso em que a pessoa identifica sua própria pessoa com o outro. Apesar dos mecanismos serem opostos, podem coexistir formando um processo identificatório ainda mais complexo.

Há casos em que o objeto pode ser colocado em um “pedestal” e, de certa forma, substituir os ideais de ego de um sujeito. Neste caso, a identificação pode ter sido substituída por uma idealização. Do ponto de vista de uma conceitualização, enquanto identificado, o sujeito é capaz de investir em si, e também no objeto. Já quando idealizado, somente o objeto é passível de investimento, enquanto o ego do indivíduo fica desinvestido e fraco.

Não são muito incomuns casos de pessoas que cresceram em ambientes adversos, em que não foram desejadas, investidas de afeto, apegarem-se fanaticamente a objetos externos, seja um grande ídolo ou mesmo uma instituição como a Igreja por exemplo, buscando uma reparação de uma grande ferida narcísica, ou mesmo de um estágio anterior, de investimento narcísico para uma constituição psíquica como sujeito.

Claro que não se pode restringir a um ou outro grupo de pessoas este modelo de identificação que evolui para um estágio de idealização em que o investimento em seu próprio ego se esvazia e vai todo para o objeto, afinal, o indivíduo “mais bem constituído” (se é que podemos classificar assim), também está sujeito a idealizar um objeto. O que seria o apaixonado se não um sujeito esvaziado de libido, já que o objeto torna-se alvo de todo seu investimento libidinal.

Com a perda de um objeto de amor, que pode também ser a perda de um ideal, a energia que estaria ligada ao objeto amado deve ser restaurada para o ego. No trabalho do luto, o ego deve ser reinvestido narcisicamente, em um processo atemporal, longo, doloroso e gradual. A partir deste processo de reinvestimento narcísico, no que Freud coloca como sendo a passagem pelo luto normal, outro objeto poderá futuramente ser colocado como substituto do objeto de amor anteriormente perdido.

Ao perder um objeto de amor, há também a possibilidade de o ego introjetar para si o objeto perdido, por uma regressão à fase oral. Por uma identificação narcísica, o ego se modifica devorando o objeto, sendo este incapaz de reinvestir a libido do objeto amado perdido, daí a diferenciação entre o luto e a melancolia.

Neste caso a identificação está ligada à oralidade, voracidade, algo arcaico. O melancólico se identifica com o objeto e o introjeta, mas não é uma introjeção com o objeto total, e sim com a parte negra e sombria do objeto. O indivíduo se enxerga diminuído, se recrimina, tudo relativo ao mundo externo parece ser bom e incapaz de investimento, e tudo o que está introjetado em seu ego, em contraponto, é visto como ruim e repugnante. Mais uma vez o processo de identificação ocorre de forma inconsciente, e portanto, o melancólico não tem a consciência de que o que ele realmente odeia é o objeto introjetado, e não seu próprio ego. Por isso pode-se dizer que o suicídio de um melancólico é um homicídio inconsciente.

Haveria aqui a possibilidade de desenvolver o assunto da identificação sob a ótica de outros pensadores da Psicanálise. Como a intenção deste texto não é esgotar a temática, mas ser objeto de uma reflexão, finalizo por aqui e os convido a ler um outro artigo que escrevi aqui no site relacionado a este assunto, chamado de “Identidade Produzida".

Deixe um comentário

Make sure you enter all the required information, indicated by an asterisk (*). HTML code is not allowed.