Estudar psicanálise

Resolvi escrever este texto endereçado principalmente aos que pensam em estudar psicanálise, ou mesmo aos curiosos que simpatizam com o tema.

A impressão que tive ao ter os primeiros contatos com o estudo da psicanálise é de que seria um processo de construção muito singular. Para os que buscam uma linearidade característica de muitas áreas do campo do conhecimento, pode ser um pouco angustiante.

Angustiante por que a psique humana não tem começo, meio e fim, nada parece ser “preto no branco”, como poderíamos dizer em uma linguagem mais cotidiana. Impossível desta forma, enquadrarmos conceitos em nossas “gavetas” do conhecimento. É preciso tentar pensar além de uma lógica de causa e efeito, e daí pode haver uma grata surpresa de quão apaixonante pode ser o contato com a psicanálise. Seria prudente não tomar como verdade absoluta qualquer tipo de discussão acerca do inconsciente do ser humano. Na construção de sua obra, Freud, o responsável por dar vida à psicanálise, deu algumas pistas sobre isto.

É que em muitas leituras, Freud apresenta uma teoria e em seguida a desconstrói, o que revela uma honestidade cativante para com o leitor interessado em adentrar o instigante universo do inconsciente. A convicção pode ser importante, mas pode andar de mãos dadas com a ignorância, somente a autocrítica e a humildade em reconhecer que o que construiu não era supremo, é que permitiram à Freud solidificar algo tão influente e presente em nosso modo de vida na contemporaneidade.

No trecho abaixo retirado de um de seus textos, Freud deixa clara esta complexidade do estudo da mente humana, bem como sua flexibilidade em formular uma teoria e depois modificá-la a partir de estudos posteriores: ”Senhoras e senhores, receio que acharão essa exposição difícil de acompanhar, e sabem que ainda não está completa. Lamento ter provocado sua insatisfação. Não posso, contudo, propor-me nenhum outro objetivo além daquele de dar-lhes uma impressão referente à natureza de nossos achados e às dificuldades envolvidas na sua elucidação. Quanto mais nos aprofundamos no estudo dos processos mentais, mais reconhecemos sua abundância e complexidade. Muitas fórmulas simples, que, de início, pareciam preencher nossas necessidades, posteriormente vieram a se revelar inadequadas. Não nos cansamos de modificá-las e aperfeiçoá-las.”(“Trecho retirado de “Conferência 32: Ansiedade e Vida Instintual”)

Na matemática, física, química, por exemplo, em um primeiro contato nos concentraríamos nos conceitos mais básicos, para que a partir destes cheguemos a outros mais complexos, e desta maneira os conceitos vão tomando forma e o nível de dificuldade vai aumentando progressivamente, diferente do que ocorre com os estudos psicanalíticos.

Levando em conta a subjetividade e a singularidade do inconsciente, devemos considerar a dificuldade do ingressante nos estudos de psicanálise em lidar com esta falta de linearidade.

Como então começar a ler os textos de Freud, sem antes ter a clareza do conceito de regressão, ou pulsão, ou inconsciente?

Isso suscitaria outra pertinente pergunta: Como ter clareza dos conceitos psicanalíticos sem antes ler os textos de Freud?

Um paradoxo insolúvel?

“Se eu estudar os conceitos antes de começar a leitura dos textos, vou ter que lidar com a dificuldade em contextualizá-los.”

“Por outro lado, se eu começar a ler os textos sem saber o significado dos conceitos primordiais, teria que lidar com a falta de compreensão total, de o texto ficar com algumas lacunas, já que não domino e não tenho clareza de alguns conceitos”.

Pois é preciso mesmo conviver com as lacunas. Se tentarmos entender tudo logo de cara, a angustia pode se tornar insuportável e invadir a vontade e o prazer pelos estudos.

A psicanálise estuda o que é humano, por isso estará sempre sendo pensada e repensada, se optar se formar como psicanalista prepare-se então para estudar para o resto da vida, e a sustentar a angústia da falta, de ter a convicta sensação de que sempre há algo que não sabe, e é aí que pode habitar a beleza.

Existem vários autores e pensadores que contribuíram muito com a psicanálise depois de Freud, e muitas abordagens diferentes acerca da psicanálise. (Lacan, Winnicot, Bion, Melanie Klein, Ferenczi, Ballint, dentre outros).

Tenho que escolher um autor ou uma linha a seguir? Não necessariamente, claro que poderá e deverá se identificar mais com uma ou outra forma de pensar a psicanálise, mas acredito que as diferenças e discordâncias teóricas podem e devem servir para construir, e não destruir. Podem conviver, e não necessariamente uma forma de pensar a psicanálise deve excluir outra. Reconhecer a diferença é algo bem diferente de excluí-la, penso então que é possível (e até salutar em minha opinião), entrar em contato com diferentes formas de pensar a psicanálise. Mas também é importante salientar que em alguns pontos uma linha de pensamento não poderá conviver com outra, por se contradizerem.

O que beira a unanimidade entre psicanalistas, é que a formação deve ser baseada em um tripé fundamental: estudo teórico, análise própria, e supervisão (acompanhamento de casos clínicos por outro psicanalista mais experiente). E é deste tripé que se explica a singularidade da formação de cada psicanalista, que não pode ser comprovada somente por um diploma, mas principalmente pelo seu preparo e autorização própria para exercer este ofício.

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