Espetáculo Pulsão Espetáculo Pulsão Foto Eduardo Bernardino.

Introdução ao conceito de Pulsão em Psicanálise

Abaixo compartilho um trabalho que fiz na ocasião do meu primeiro ano no Curso de Formação do Centro de Estudos psicanalíticos (CEP). A escrita está em um tom mais acadêmico, então talvez seja mais direcionada a quem tem interesse ou já iniciou os estudos em Psicanálise.

Para uma melhor compreensão da teoria pulsional de Freud, creio ser válido que entremos em uma discussão da origem e do uso da palavra pulsão, ou trieb, do alemão. Como afirma Hanns (1999), Freud usa o termo pulsão em uma gama vasta de significados correntes da palavra trieb do alemão. Em algumas traduções para o Português usa-se a palavra instinto para se referir à trieb, todavia esta tradução pode gerar uma confusão, uma vez que em Alemão existe tanto a palavra Trieb, quanto a palavra Instinkt.

De acordo com Laplanche e Pontails (1982), alguns autores parecem empregar os dois termos indistintamente, enquanto outros usam Instinkt para designar um comportamento hereditário que já estão pré-definidos em uma espécie, adotando, portanto, um significado mais biológico. Por outro lado o termo Trieb evidencia o sentido de impulsão, colocando em destaque um caráter de pressão, expresso neste neologismo da língua portuguesa, pulsão.

Até mesmo por não fazer parte da língua, ao contrário de trieb em alemão, o termo pulsão acaba por não ter lastro na língua falada como aponta Girola (2004), e desta forma contribui para evitar qualquer confusão com instinto e tendência. “Em Freud encontramos os termos em acepções nitidamente distintas”. (LAPLANCHE, PONTALIS, 1982, p.394) Hanns (1999) assume algumas concepções do termo trieb em alemão, que passam a ser úteis para compreendermos a pulsão no contexto da teoria freudiana:

  • Vontade, impulso, desejo, força que impele.
  • Base para uma necessidade, como exemplo o impulso de respirar, que é a base do próprio querer.
  • Instinto que incentiva em situação favorável ou prazerosa, que se acumula e passa de incentivo a imperativo em situação desfavorável ou desprazerosa. Passa a ser torturante na medida em que não o realizamos ou não o satisfazemos.
  • Instinto como força biológica motivadora que leva os seres de uma espécie a agir visando um mesmo objetivo.
  • Força atemporal, intangível, maior que o sujeito isolado.

Para Roudinesco e Plon (1997), a pulsão “...é um grande conceito da doutrina psicanalítica, definido como a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem”. (ROUDINESCO, PLON, 1997, p. 628)

Em sua obra “Os Instintos e suas vicissitudes”(1915), Freud discorre sobre o conceito de pulsão, e trata de diferenciar a pulsão de um estímulo, apesar de ambos os conceitos estarem relacionados na medida em que o primeiro é um estímulo aplicado a mente. Nem por isso podemos tomar por base que todos os estímulos aplicados a mente sejam de natureza pulsional, mas em alguns casos estes passam a ser de caráter fisiológico, como por exemplo uma luz forte que incide à vista.

Ao contrário dos estímulos fisiológicos que surgem do mundo exterior, os estímulos pulsionais são sempre de natureza interna, e impossibilitam a fuga do indivíduo, como aborda Laplanche e Pontalis (1982), no trecho abaixo:

“A lado das excitações externas a que o indivíduo pode fugir ou de que pode proteger-se, existem fontes internas portadoras constantes de um afluxo de excitação a que o organismo não pode escapar e que é o fator propulsor do funcionamento do aparelho psíquico.” (LAPLANCHE, PONTALIS, 1982, p. 395).

Outra característica importante do conceito de pulsão é seu caráter constante e de alta pressão. O impacto pulsional será sempre constante, nunca isolado e momentâneo. Esta força energética dinâmica demandará uma necessidade que será sanada por uma satisfação. (FREUD, 1915). Enquanto os estímulos externos podem ser dominados com maior facilidade, por intermédio de movimentos musculares capazes de afastá-los de seu raio de influência através de uma ação simples, os estímulos pulsionais demandam muito mais trabalho para serem administrados. O sistema nervoso passa então a ser responsável por reduzir os estímulos pulsionais ao nível mais baixo possível, de forma que quanto menor seja o grau de estimulação do aparelho psíquico, mais saudável, ou mais próximo do prazer estará a psique do indivíduo.

Os estímulos pulsionais são processos contínuos e complexos dos quais o aparelho psíquico não pode evitar ou acabar. O sistema nervoso deverá administrar e lidar com a energia pulsional, o que não é algo simples como discorre Freud no trecho abaixo:

“...exigem muito mais do sistema nervoso, fazendo com que ele empreenda atividades complexas e interligadas, pelo qual o mundo externo se modifica de forma a proporcionar satisfação à fonte interna de estimulação. Acima de tudo, obrigam o sistema nervoso a renunciar à sua intenção ideal de afastar os estímulos, pois mantém um fluxo incessante e inevitável de estimulação.” (FREUD, 1915, p. 126) Após esta abordagem sobre o conceito da pulsão, podemos partir para a exposição de alguns termos relacionados ao mecanismo pulsional:

  • Pressão: fator motor da pulsão, todos os instintos pulsionais são dotados de pressão que exigirá a atividade do psiquismo.
  • Finalidade: meta da pulsão, todos os instintos pulsionais possuem uma finalidade que deve ser satisfeita. Por mais que a finalidade última da pulsão seja imutável, pode haver vários caminhos para satisfação desta necessidade, ou seja a pulsão passa a ter várias finalidades intermediárias que podem convergir para a finalidade final.
  • Objeto: é o elemento que possibilita a pulsão à alcançar sua finalidade. Pode variar em demasia, não é ligado à pulsão, deve ser somente adequado para a satisfação da finalidade pulsional. Pode ser um objeto externo ou mesmo uma parte do próprio corpo do indivíduo. Uma pulsão pode mudar de objeto, eles podem substituir-se, sendo que um objeto pode assumir o papel de outro quando a realidade recusa a satisfação de uma pulsão. Neste caso a pulsão muda de objeto para obter a mesma finalidade. Também pode ocorrer de um único objeto ser alvo único de pulsões com distintas finalidades.
  • Fonte: é um órgão ou parte do corpo que determinará a origem de uma pulsão. Para fins de investigações clínicas o conhecimento das fontes de uma pulsão não é de importância como é a finalidade de uma pulsão.

A partir do momento que introduzimos os elementos ligados à noção de pulsão, podemos compreender melhor o percurso da mesma. As pulsões são originadas de um estímulo pulsional, gerado por uma fonte pulsional. Estes estímulos chegam à psique e podem gerar um acúmulo de energia que causará uma pressão que pode ser percebida como incômoda. Tal processo desencadeia uma necessidade ou urgência de satisfação, que buscará um objeto representado por imagens ou afetos que poderá possibilitar à pulsão alcançar sua finalidade. (HANSS, 1999) Neste processo de satisfação de uma necessidade gerada por uma pulsão, esta pode sofrer uma reversão de conteúdo, e a finalidade que era ativa pode passar a ser passiva. A análise da reversão da pulsão para a própria pessoa permitirá a Freud abordar a relação entre o sadismo e o masoquismo. (Roudinesco, Plon 1997). O masoquismo (passivo), nada mais é do que o sadismo (ativo) que retorna em direção ao próprio sujeito, ou seja, a finalidade ativa se transforma em finalidade passiva.

Bibliografia

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol. VI Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901)

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol XIV A Historia do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916)

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol XXII Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise e outros trabalhos (1932-1936)

GIROLA, Roberto – A Psicanalise Cura? Uma Introdução à teoria psicanalítica – Ed. Ideias e Letras (2004)

HANSS, Luiz – Dicionário comentado do Alemão de Freud – Ed. Imago (1996)

HANSS, Luiz – A teoria pulsional – Ed. Imago (1999)

LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. – Vocabulário de Psicanálise, Ed. Martins Fontes (1992)

ROUDINESCO, E. e PLON, M. – Dicionário de Psicanálise, Ed. Jorge Zahar Editor (1997)

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